Especialistas rebatem afirmação do presidente sobre a ditadura militar no Brasil: “recomendo que estudem a história”

No dia 31 de março de 2019, completaram-se 55 anos da instauração do golpe de 1964 no Brasil. Com apoio do atual presidente Jair Bolsonaro, que autorizou a comemoração do aniversário da ditadura militar e ainda proibiu a utilização dos termos que acredita serem inapropriados, grupos a favor do regime foram às ruas se manifestar.

Essa homenagem, entretanto, não agradou a todos. O professor de história Avelar Cézar Imanura critica a posição a favor do regime. “Eu recomendaria para as pessoas que acham que não foi golpe e nem ditadura militar que estudem mais a história”, sugeriu.

Essas duas opiniões opostas foram discutidas em grande escala nas redes sociais, após o pronunciamento em favor da comemoração da data que deu início ao período militar no Brasil.

Para o jornalista e sociólogo, formado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pedro Ramos, “as comemorações no dia 31 de março que homenagearam a ditadura militar no Brasil desrespeitam os fatos históricos e largamente documentados por estudiosos. Existe um movimento que tenta recontar fatos históricos ignorando o que realmente aconteceu, como a própria associação do nazismo com a esquerda, tese defendida pelo ministro das Relações Exteriores”.

Pedro ressalta que o movimento do último dia de março “ignora os retrocessos que o Brasil teve no campo social e político” e ainda compara as ações com os países vizinhos que viveram momentos parecidos em sua história. “Nos países vizinhos, Argentina e Chile têm dado mostras de que aprenderam com seus erros do passado. Os dois também tiveram ditaduras militares duradouras e violentas, desrespeitando os direitos mais básicos de seus povos. Diferentemente daqui, lá o movimento de defender e apoiar o regime militar não é tão forte.”

Relatos de quem viveu

Em meio a toda essa discussão que seguiu durante o mês de março, muitas histórias de vítimas da ditadura foram relembradas. Durante uma edição do programa de TV, Conversa com Bial, um soldado da guerrilha Araguaia, que ocorreu durante o regime militar, conta as torturas que sofreu e que viu pessoas sofrerem dentro dos quartéis. Ele fez parte do documentário “Soldados do Araguaia”, feito pelo cineasta Belisário Franca. Um documentário com mais depoimentos de soldados que foram torturados por tantos anos.

A história deles não é a única sombria que ronda o passado do Brasil. Tantos outros relatos navegam pela internet, o que reforça os argumentos daqueles que são contra a comemoração do dia 31 de março.

Há relatos de mulheres que tiveram familiares torturados e também sofreram por defenderem o que acreditavam, como é o caso da estilista Zuzu Angel, que teve seu filho, Stuart Angel, sequestrado em 1971 por agentes da repressão e seu corpo nunca foi encontrado. Cinco anos depois Zuzu morreu quando seu carro capotou após ser encurralado. Acredita-se que o ocorrido foi uma emboscada para matar Angel.

Um ano antes Zuzu deixou uma carta para Chico Buarque e mais alguns amigos, em que dizia que se algo acontecesse com ela e fosse encontrada morta, teria sido pelas mãos daqueles que mataram seu filho.

Esta é apenas uma entre muitas outras histórias tão horripilantes que aconteceram durante o período militar que fez tantas vítimas.

No ano de 1972, Aurora Furtado, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), antes de ser morta por 29 tiros aos 26 anos, foi torturada de várias formas diferentes e doentias.

É muito comum dizerem que as pessoas que foram mortas durante aquele período eram pessoas que realmente mereciam. Porém, qualquer pessoa que aparentava trazer ameaça para o governo da época – mesmo que não tivesse feito nada para ser acusada – era levada embora. Como aconteceu com o estudante de geologia da USP, Alexandre Vannucchi Leme que foi morto aos 22 anos de idade depois de ser preso por agentes do governo militar.

Não foram apenas vítimas com grandes nomes e posições famosas que sofreram na ditadura militar. Comemorar a data de início desse fato histórico fez memórias perturbadoras borbulharem outra vez nas mentes das vítimas que sobreviveram, e pessoas mais novas descobrirem as atrocidades que sucederam nesse período.

A ditadura militar gera mais perigo?

Com todos esses relatos fica claro as consequências que um governo ditatorial pode trazer. Por conta disso o professor da USP Marcos Napolitano de Eugênio, durante entrevista para o G1 diz que o que aconteceu em 1964 não pode ser chamado de regime democrático forte, como disse o ex-ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues.

Segundo Marcos, “a expressão ‘regime democrático forte’ não vale nada. Foi um regime baseado no autoritarismo”. Portanto relembrar essa época tem que ser feito com cautela e compreensão dos fatos para que não se repita novamente.


  • Repórter: Agnes Cunha
  • Pauteiro: Rafael Brayan
  • Revisora: Marina Gomes
  • Editor: Wesley Paulino
  • Multimídia: Thaís Monteiro
  • Fotógrafo: Thiago Siqueira

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