Jornalismo periférico em evidência

Campus São Miguel sedia a primeira palestra da III Semana de Jornalismo – 2019

 

Por Luiz Gustavo

 

Foi realizada na manhã desta segunda-feira (29) a primeira palestra da edição de 2019 da Semana de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul. O tema deste ano é “Singular e Complexo: assim é o mundo dos jornalistas”. A programação aborda o tema da representatividade de diversas minorias nas pautas e no mercado de trabalho da Comunicação.

Foto: Heloísa Freitas

Para começar, foi realizada uma mesa-redonda discutindo a atuação do jornalismo nas periferias e o combate à marginalização. Os convidados foram Aline Rodrigues, da agência de notícias Periferia em Movimento; Eduardo Silva, da Agência Mural; e Ronaldo Matos, representando a agência Desenrola e Não me Enrola. O professor mestre Antonio Assiz mediou o debate.

Os convidados falaram sobre o trabalho que desenvolvem nas periferias em várias regiões de São Paulo e a importância da ação do jornalismo comunitário, além de responder às perguntas da plateia.

Os trabalhos desenvolvidos pelas agências convidadas têm como objetivo reduzir a marginalização das comunidades paulistas, mostrando um lado raramente explorado e de pouco interesse de grandes veículos de comunicação.

Sobre os convidados

A agência Periferia em Movimento foi representada pela idealizadora Aline Rodrigues, que falou sobre algumas das situações típicas do jornalismo periférico, assim como de experiências que obteve em seu trabalho na agência, desde 2009. Nascida de um TCC de jornalismo que pretendia mostrar a “violência como uma consequência da ausência de direitos, inclusive direitos de representação”, o principal objetivo da iniciativa é retratar a periferia de forma diferente da visão da grande mídia, apresentando um lado da comunidade que não recebe a devida atenção.

O caminho percorrido não é fácil, já que a marginalização das periferias faz com que muitos não levem o trabalho realizado pela agência a sério. “Já disseram que estávamos brincando de fazer jornalismo”, afirma Aline, relatando o preconceito de outros jornalistas. “Fomos finalistas de um prêmio, e disseram que só chegamos até ali porque não poderíamos concorrer com a Globo. As pessoas são julgadas pelo lugar de onde vieram”, concluiu.

Ser julgado pelo lugar de origem não é um caso isolado. Eduardo Silva, um dos membros da Agência Mural, relata o mesmo problema. “Quanto mais distante do centro, mais se tem uma visão de que todos são iguais”, diz. Eduardo também sofreu preconceito, embora sentisse mais em entrevistas de emprego, já que, segundo ele, é comum empresas localizadas no centro da cidade não recrutarem as pessoas que vêm da periferia, utilizando como justificativa o distanciamento da localidade do candidato ao trabalho.

Foto: Emilly J. Caetano

No entanto, ele diz que não se deixa desanimar, sentindo uma alegria muito grande quando pessoas reconhecem o seu trabalho nos lugares onde participa de palestras, dizendo que “encontrar alguém que já leu o que nós escrevemos é muito gratificante”. A Agência Mural foi idealizada em 2010, começando como um blog que tinha como finalidade retratar a vida na periferia. Hoje são financiados pela empresa Open Society, e cobrem a maior parte dos distritos de São Paulo, empregando pessoas que moram nos locais sobre os quais escrevem.

Ronaldo Matos, da agência Desenrola e Não me Enrola, um portal de notícias da periferia, contou que eles desenvolvem, ao todo, quatro projetos na comunidade: o Portal de Notícias; Você, Repórter da Periferia; Centro de Mídia M. Boi Mirim; e o Infoterritório. Segundo Ronaldo, a resposta aos projetos é bem positiva, já que jovens de escolas públicas que querem explorar a área do audiovisual e não têm onde fazê-lo, acabam usando o centro de mídia como um laboratório de reprodução. Algo que também é feito por muitas pessoas que trabalham com produção e usam a ilha de edição do centro, pois bons equipamentos são muito caros, o que acaba “impactando a comunicação institucional de coletivos, que praticamente não existe, mas por termos um espaço gratuito e acessível, eles conseguem desenvolver isso minimamente ”, completa.  A agência também influenciou jovens aspirantes a seguirem a área do jornalismo. Entre eles está o estudante do sétimo semestre, Luiz Lucas, 22, que participou do curso “Você, Repórter da Periferia”. Também se envolveu em eventos das outras agências presentes na palestra, ajudando sempre que pode para acompanhar o avanço do jornalismo periférico.

Graças ao trabalho executado na comunidade, a agência Desenrola e Não me Enrola tornou-se referência, “quase todo tipo de iniciativa que acontece no território, as pessoas enviam mensagens sugerindo pautas”, diz Ronaldo. A agência faz um compilado das informações, e acaba explorando as pautas que se cruzam.

O sentimento entre as três agências não é de rivalidade, mas sim de aliança, sendo que todas estão tentando atrair a atenção do público para as comunidades, e se possível, derrubar o preconceito.

Para saber mais

Não é a primeira vez que a Universidade Cruzeiro do Sul organiza um encontro de comunicação. O primeiro aconteceu em 2015, mas foi nos anos de 2017/2018 que se estabeleceu uma semana exclusivamente voltada para a área do jornalismo. Uma novidade é o envolvimento mais ativo dos alunos na organização do evento. Segundo a professora e coordenadora do curso Regina Tavares de Menezes, “é imprescindível falar que os alunos realizam a cobertura do evento”. Além de levar informação a todos os alunos interessados, o evento funciona como uma oficina prática para os estudantes do 2º e 3º semestres, que desenvolvem projeto Interdisciplinar na Agência Universitária de Notícias (AUN), sob a supervisão da professora Mirian Meliani.

Foto cedida por Pedro Guilherme.

Já na visão dos alunos da Universidade, a oportunidade de ter uma forma de aprender mais sobre um campo da profissão que não é tão “tradicional” é muito valorizada.  Amanda Sousa, 20, estudante do sétimo semestre de jornalismo, diz que “é muito importante trazer a realidade de que o jornalismo não é só de centro”, algo que também é dito pelo professor Antônio Assiz, que relata que o jornalismo vai além da sala de aula.

A Semana do Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul segue até o dia 03/05, com uma programação de palestras nos campi de São Miguel e Liberdade, nos horários da manhã e da noite. Confira a programação: https://www.facebook.com/events/639670756473613/?event_time_id=639670769806945

 

Repórteres/Redatores: Luiz Gustavo e Wallas Novais

Editora: Barbara Sanches

Revisor: Alex da Silva Rosa

Fotógrafas: Emilly J. Caetano e Heloísa Freitas

Produtora e Redes Sociais: Thifany Fernandes

 

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