PerifaCon: uma nova forma de consumir cultura pop

A primeira edição superou as expectativas iniciais e foi considerada um sucesso pelo público, organizadores e crítica.

Por Jônatas Marques e Teotonio Mariano

No último dia 24 de março, na Fábrica de Cultura do Capão Redondo, em São Paulo, aconteceu a PerifaCon, uma feira geek, gratuita e realizada para a periferia. O evento recebeu mais de 4 mil pessoas em nove horas de programação, sendo preciso até limitar a entrada em determinado momento para evitar a superlotação. A PerifaCon tornou-se realidade após um financiamento coletivo, que chegou quase a dobrar a meta mais alta, arrecadando próximo de 8 mil reais. A ideia surgiu de um grupo de pessoas, de maioria negra e da periferia, amantes de quadrinhos e que buscavam levar a arte e o entretenimento para os locais mais afastados de São Paulo.

Em entrevista à AUN, Luíze Tavares, 22, Relações Públicas e uma das criadoras da PerifaCon, explicou sobre a dificuldade de transformar o projeto em realidade. “Fomos muito inocentes quando lançamos a meta de financiamento. O evento começou a crescer muito, começamos a fazer os cálculos e vimos que tínhamos um rombo no caixa. Nesse momento, a gente pensou que não ia rolar. Até que a Chiaroscuro Studios nos procurou para apoiar o evento. Eles foram essenciais nessa primeira edição.”

Exposição Rap em Quadrinhos. Foto: Jefferson de Souza Bezerra

A programação contou com salas de jogos, lojas com produtos independentes, locais de atividades e exposições de artistas, além de sessões de autógrafos com personalidades brasileiras conhecidas da comunidade nerd, como Joe Prado e Load & Loud. As mesas de debate foram um diferencial da PerifaCon, que trouxe temas importantes para a discussão entre especialistas e a plateia, como “Produção e Representatividade Negra nos Quadrinhos” e “Mulheres no Mundo Nerd”. O espaço foi pequeno diante da procura e muitos ficaram em pé ou nem conseguiram entrar no auditório. O evento também contou com a presença de artistas consagrados, como Rashid e KL Jay, e nomes importantes da produção independente nacional, como Marcelo d’ Salete e Lya Nazura.

Os Cosplayers (fãs de Cultura Pop que representam personagens fictícios de animes, séries, filmes etc) circularam nos corredores da Fábrica de Cultura e se destacaram com trabalhos fiéis aos originais. O concurso de Cosplay da PerifaCon foi vencido por Wellington F. Silva com a sua performance de Pantera Negra. A diversidade do público também chamou a atenção quando comparada com visitantes de eventos pagos.


Por coincidência, a Comic Con Experience (CCXP), evento geek realizado pelo site “Omelete”, divulgou o preço de seus ingressos na mesma semana que aconteceu a PerifaCon. Para um dia de CCXP no final de semana, será preciso desembolsar pelo menos R$ 180, valor muitas vezes inacessível para alguns jovens, especialmente os da periferia. “É bom destacar que a PerifaCon não é concorrente da CCXP. Não queremos construir muros e sim pontes”, ressalta Luíze Tavares.

O sucesso desse tipo de evento no Brasil é recente. Feiras com temática geek/nerd passaram a acontecer depois da popularização da Internet. Em 2008, a Campus Party, que busca tratar de tecnologia e assuntos que envolvem a cultura digital, teve a sua primeira edição em São Paulo. Desde então, o evento ganhou edições anuais e passou a acontecer em Belo Horizonte, Brasília e Recife. A Brasil Game Show, que é focada em games, começou em 2009 e hoje é considerada a maior feira de games da América Latina. Em 2017, registrou 317 mil visitantes. A Comic Con Experience estreou por aqui em 2014, com objetivo de se tornar a versão brasileira da conceituada San Diego Comic-Con. Na edição de 2018, a CCXP recebeu 262 mil pessoas em seus quatro dias de evento.

A PerifaCon é a primeira do mundo a reunir, num só espaço, cultura geek, inclusão social e diversidade na periferia. O projeto agora conta com um financiamento recorrente (mensal), que tem o objetivo de viabilizar uma segunda edição do evento.

A importância da cultura na periferia

No Brasil, a arte na periferia surgiu com o circo, o futebol de várzea, os violeiros e outras formas de lazer. Mas esse termo passou a ganhar notoriedade quando algumas obras começaram a chegar aos grandes centros, como o álbum “Raio-X Brasil”, dos Racionais MCs, lançado em 1993 e o filme “Cidade de Deus” de 2002.  Atualmente, na era da informação, temos artistas como Emicida e o gênero musical funk consolidados como artes que representam as periferias.

No último Censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a cada 20 anos, 19% das favelas do país estavam na cidade de São Paulo e 11% da população paulistana já morava em locais afastados do centro expandido. Os moradores da periferia enfrentam outras dificuldades quando comparados àqueles que vivem em outras regiões, como a demora de até uma hora a mais no deslocamento para o centro e a diferença na renda dos responsáveis pelos domicílios: na favela, 95% recebia de 0 a 3 salários mínimos; essa taxa cai para 68% nos outros bairros.

Segundo Lívia de Tommasi, 57, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC) e do programa de pós-graduação em Ciências Sociais, “não se trata de levar a arte até as periferias, mas sim de incentivar a difusão das muitas manifestações artísticas e culturais que acontecem na periferia. Os moradores não são somente espectadores, mas também produtores ativos de arte e cultura”.

Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Foto: Jefferson de Souza Bezerra

A professora, em seu texto “Culturas de periferia: entre o mercado, os dispositivos de gestão e o agir político”, comenta sobre os limites do envolvimento político nas manifestações artísticas da periferia. Segundo ela, “nos últimos anos houve uma efervescência significativa de manifestações artísticas nas periferias de São Paulo. Depois de um primeiro momento de difusão, me parece que o público dessas manifestações se estabilizou, compondo um grupo restrito que circula bastante, mas que não consegue agregar e atingir os moradores; o mais difícil é ampliar o público para além dos indivíduos que já são produtores ou diretamente envolvidos na produção dessa manifestações”, conclui.

Uma das principais iniciativas do poder público é o Programa de Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo. Criado pela Lei Municipal nº 16.496/2016, o programa foi sancionado em 20 de julho de 2016. A proposta é apoiar projetos que desejam criar, manter ou difundir produções culturais na periferia. Atualmente na 3ª edição, o programa já contemplou mais de 50 projetos.

O Governador do Estado de São Paulo, João Dória (PSDB), chegou a anunciar o corte de 23% no valor destinado para a Cultura em 2019. O orçamento aprovado para o ano foi de R$ 647,2 milhões. Porém, na última segunda-feira (08/04), Dória precisou voltar atrás após a repercussão negativa do corte. Segundo projeções da Associação Brasileira das Organizações Sociais de Cultura (Abraosc), essa redução impactaria em cerca de 350 mil pessoas que são atendidas em projetos culturais no Estado.

Saiba mais

Entrevista completa com Luíze Tavares da PerifaCon

Financiamento recorrente da PerifaCon

Texto “Culturas de periferia: entre o mercado, os dispositivos de gestão e o agir político” – Lívia De Tommasi

Estudo da Abraosc sobre os cortes na Cultura

 

Pauteira – Natasha Macedo
Repórteres – Jônatas Marques e Teotonio Mariano
Fotografia – Jefferson de Souza Bezerra
Revisora – Priscila Ferreira
Editora – Bruna Santana

2 comentários em “PerifaCon: uma nova forma de consumir cultura pop

  • maio 4, 2019 em 4:53 pm
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    Adorei seu conteúdo Parabéns, bem completo e dinâmico. Era exatamente o que eu estava buscando na internet e todas as minhas dúvidas foram tiradas aqui. Muito sucesso e gratidão!

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    • maio 4, 2019 em 5:31 pm
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      Muito obrigado, Patricia! Que bom que a matéria te ajudou e que você gostou do conteúdo!
      É preciso falar sobre cultura na periferia e, consequentemente, sobre a PerifaCon.

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