Desocupação feita em 2017 na Cracolândia resultou na migração de usuários de drogas para Centros de Acolhimento de outras cidades

As consequências da retirada dos usuários de drogas da Cracolândia podem ser sentidas em toda a cidade, gerando impacto nos Centros de Acolhimento e de Recuperação.

Por Yavini Santos

A Cracolândia é uma área localizada no centro de São Paulo na qual se encontram diversas pessoas dependentes de narcóticos, que acabam abandonando seus lares devido ao vício. O local é tão frequentado que chegou a ser moradia para 1.861 usuários de drogas em abril de 2017.

A superlotação levou a prefeitura a realizar, um mês depois, a Desocupação da Cracolândia, na qual dependentes químicos foram retirados à força de onde se encontravam. Os prédios e hotéis do projeto Braços Abertos, da gestão anterior, também foram desocupados.

Essa operação, de acordo com o prefeito João Doria, foi necessária para que houvesse a redução  do tráfico de drogas naquela região. De acordo com o site G1, cerca de 900 agentes militares participaram da ação, que resultou na prisão de 38 traficantes. Os dependentes que estavam no local no momento da operação se dispersaram por todo o estado de São Paulo, alguns permaneceram nas ruas enquanto outros buscaram abrigo em Centros de Acolhimento.

Com o despejo dos dependentes químicos da Cracolândia, a prefeitura liberou em torno de 3 mil vagas para que eles pudessem se tratar. Porém, em seguida à desocupação dos prédios no centro da cidade, houve o término definitivo de toda a ação social Braços Abertos, iniciada em 2014 pelo ex-prefeito Fernando Haddad. O encerramento resultou na privatização desses locais e serviços.  

Dois hotéis do projeto que haviam sido fechados no início de 2018, por ordem judicial serão reabertos. Essa decisão foi tomada para ajudar os dependentes que habitam as ruas, tornando possível o retorno ao convívio social e à inserção no mercado de trabalho, com baixo impacto no orçamento municipal.

A Cracolândia vem sendo um ponto de compra e venda de entorpecentes desde 2005. Entretanto, os Centros de Acolhimento e as casas de recuperação são apontados por alguns dos mais importantes órgãos de prevenção ao uso de drogas para a regeneração desses indivíduos e para integrá-los novamente à sociedade.

Centros de acolhimento

Um dos locais de acolhimento procurados pelos dependentes químicos que residiam na Cracolândia foi o Centro Social Bom Samaritano, localizado em Suzano, interior de São Paulo, iniciativa que existe há 12 anos. O centro se mantém através de uma verba que é disponibilizada pela prefeitura de Suzano e por doações. Pelo fato de não ser um trabalho voluntário, essa verba é direcionada para o pagamento dos funcionários e para arcar com custos básicos, como alimentação, água e luz. O centro tem o intuito de fazer a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho e promover o retorno ao convívio familiar. A casa suporta em média 50 acolhidos, entre homens, mulheres e famílias.

A assistente social Camila Irene, que trabalha no Bom Samaritano há cerca de um ano e meio, diz que os dependentes acolhidos normalmente chegam através do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) ou por iniciativa própria. O local oferece seus serviços  atualmente para um total de 44 homens, 10 mulheres e uma família. Quando não há vagas disponíveis, faz o encaminhamento para uma das Casas de Recuperação.

Para a profissional, o programa Braços Abertos teve méritos, mas errou ao liberar uma pequena verba em dinheiro para os usuários. “Eu acredito que esse público precisa de acolhimento, mas precisamos ter muito cuidado com os benefícios que oferecemos. O fato de  entregar os 15 reais em suas mãos, por exemplo, é uma atitude que está causando danos a eles mesmos, porque possuem problemas com dependência química e vão usar essa renda para comprar entorpecentes e bebidas alcoólicas.”

Apesar de disponibilizar 3 mil vagas para os dependentes, a prefeitura dificultou a atuação dos centros de acolhimento, colocando diversos obstáculos. Como a verba que eles possuem já está comprometida, o Centro Bom Samaritano está em reforma para melhoria no local e terá que fazer outros ajustes, de acordo com as regras impostas pela prefeitura, como dividir seus quartos, que são de sete a treze leitos e transformá-los em quartos com no máximo quatro leitos.

A opinião de um ex-usuário

Renan Silva, 27 anos, ex-dependente químico, tornou-se um viciado ao envolver-se com um grupo de amigos que já usavam substâncias ilícitas. Passou por 14 tratamentos em Casas de Recuperação, Centros de Acolhimento e clínicas psiquiátricas e não  concluiu nenhum deles. Uma tomada de decisão individual foi o que fez a diferença em sua vida. Ele está livre das drogas há um ano e nove meses.

Ele se refere à Cracolândia como um local atrativo para quem usa drogas, pois é um ambiente de comércio livre, com fácil acesso a diversos tipos de substâncias alucinógenas, bem como a roupas e outros objetos. A principal moeda de troca ali é a droga. Ele conta que foi para a Cracolândia em busca de crack, por não haver julgamentos ou retaliações, pois todos estavam na mesma situação.

Apesar de não estar presente no instante da desocupação, diz que já participou de outros conflitos e que nessas operações os militares costumam ser bem agressivos, não há muito respeito com os usuários. “Não usei os serviços do Braços Abertos, mas todos que estão nessa situação acreditam que o programa ajuda a estabilizar a vida, sendo um dependente ou não, pois você é acolhido, tem um lugar para ficar, trabalha algumas horas, pode se alimentar no Bom Prato, entre outras coisas positivas”, opina. Porém, ele também discorda da entrega de um valor em dinheiro para os dependentes químicos. “A renda acaba contribuindo para ele se manter na droga.”

Sobre as clínicas de reabilitação, diz que todas funcionam como empresas. “A pessoa chega, se recupera um pouco e é colocada para trabalhar, sem remuneração, sem benefícios e sem infraestrutura alguma para se manter. Não há remédios para acalmar ou algum tipo de tratamento para realmente se livrar do vício” conta Renan.

 

 

fotografia de Daniel Marques, revisão de Fernanda Iana e edição e pauta de Kevin Marques

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