Madame Club: o coração do underground nas noites paulistanas

Como esse espaço cultural tem influenciado a vida noturna e reunido diversas tribos urbanas da maior capital brasileira por mais de três décadas
Entrada do clube Madame, em Bela Vista.

Por Alex da Silva Rosa e Thifany Fernandes

A cidade de São Paulo é atualmente um dos maiores e mais vastos pontos culturais no Brasil. Nela encontramos uma população dividida entre as mais variadas classes socioeconômicas e grupos segmentados pela etnia, sexualidade, religião ou simplesmente um estilo de vida que adotaram com a influência da música, vestimenta e através da maneira que convivem em sociedade, as chamadas tribos urbanas.

Em meados da década de 1970 e 1980, em meio à aparição desses grupos, surgiram diversos points que reuniam esses jovens para o seu entretenimento com shows e baladas, um clube em específico é o Madame Satã, atualmente chamado apenas de Madame. Fundado em 21 de outubro de 1983 e situado no bairro italiano da Bela Vista, na região central de São Paulo, época em que a new wave começou a se popularizar no país, o local tornou-se conhecido por reunir todos os grupos sociais, desde punks e góticos até jornalistas e poetas, transformando-se num marco em comparação a outros locais. Ao ser questionado sobre como o Madame impactou por décadas a cultura paulistana, Igor Calmona, sócio proprietário e DJ revela: “Somente a longa vida da casa já representa um bom indício de que, por gerações, vem influenciando e fomentando a cultura, a música e a noite em São Paulo, tendo em vista que a maioria das casas não perduram tanto tempo. O Madame sempre foi referência do underground, diversas bandas principalmente de rock, nos anos 80, iniciaram suas carreiras aqui, como RPM, Capital Inicial, Ira, entre outras.”

No final dos anos 2000, o Madame teve que fechar as portas, devido à decadência do lugar. Alguns anos depois, Gerson Rodrigues e Igor Calmona decidiram reviver a história e conseguiram, após uma série de reformas, reativar o casarão datado de 1936. “O primeiro desafio foi alugar o espaço, pois os proprietários não queriam mais reabrir como casa noturna.

Somente depois de muita negociação, por eles acreditarem no nosso trabalho, nós conseguimos. Depois, a dificuldade foi reformar tudo, pois encontramos apenas as paredes da casa, estava tudo destruído, tomamos o cuidado de fazer um projeto que manteria a essência, preservando a arquitetura que inclusive é tombada pelo patrimônio histórico da cidade”, conta Calmona. Após todo o trabalho de reestruturação, ainda precisaram da aprovação e confiança do antigo público e dos novos frequentadores para reerguer a reputação do famoso Madame a partir da sua reabertura em 2012.

As baladas que ocorrem em uma pista com requintes de mistério e um toque de sobrenatural que embalaram um clima romântico ao longo de sua trajetória é uma de suas marcas registradas. Magal Prado, DJ experiente com passagem em outros clubes, afirma que o Madame teve muita influência em outras casas noturnas em São Paulo. “Isso aconteceu principalmente no seu primeiro período, entre 1983 e 1986, quando era uma novidade na noite, e não apenas influenciou outros clubes como também os próprios frequentadores, algo difícil de acontecer com qualquer outra balada”, diz.

Outra visão sobre o impacto cultural do Madame na vida noturna da capital é relatada por Rodrigo Almeida, mais conhecido como DJ Cyber, que contou como é tocar em um lugar tão exclusivo e poderoso na cena underground da cidade. “É uma experiência única ser DJ no Madame sabendo que é um lugar tão histórico, uma das principais casas no gênero e a única que está aberta atualmente e no mesmo local. Acredito que as festas realizadas ao longo dos anos até hoje possibilitaram a longevidade da casa. São únicas e grande parte das músicas que se ouve aqui não são tocadas em nenhum lugar de São Paulo”.

A preservação da identidade de um espaço cultural tão autêntico foi vital para a atração de tantas gerações ao longo de 35 anos. Igor Calmona afirma que “cada vez menos existem espaços desse tipo, principalmente nesse segmento, a cultura acaba sendo sempre esquecida e colocada em segundo plano pelos nossos governantes e consequentemente pelos empresários. Por isso seria importante a criação de outras casas, pois a cidade e as pessoas que vivem aqui precisam disso para saírem da rotina de trabalho-casa.”

Atualmente, o Madame, além de sua estrutura clássica com a antiga pista, possui dois bares, áreas de descanso e de fumantes, palco para shows musicais e, claro, sua típica decoração gótica. Conta com um novo espaço inaugurado em setembro do ano passado, que inclui uma pista de dança, bar, área de descanso e salão de jogos, sendo essa a parte inicial do projeto de ampliação da casa, a futura Estação Madame.


Quadros enfeitando a sala de jogos

Endereço: Rua Conselheiro Ramalho, 873, Bela Vista, São Paulo – SP

 

Funcionamento: Aberto sextas e sábados, das 23:30 às 06:00 e domingos das 20:00 às 01:00

 

Entrada: 25 reais entrada H/M ou 50 reais de consumação com nome na lista (acessível pela página dos eventos no Facebook do Madame) com alguns eventos em específico custando entre 30 e 35 reais, 30 reais entrada H/M ou 60 reais de consumação sem nome na lista e VIP para mulheres até 00:00 às sextas e sábados.

 

Site: http://www.madameclub.com.br/ ou https://m.facebook.com/madameundergroundclub/

 

Tel: (11) 2592-4474

 

Entrada proibida para menores de 18 anos.

Reporter, redator e revisor: Alex da Silva Rosa

Reporter e redatora: Thifany C. Fernandes

Editor: Matheus L. Lizardo

Fotografa: Barbara Sanches

Pauteira e multimídia: Emilly J. Caetano

 

Um comentário em “Madame Club: o coração do underground nas noites paulistanas

  • maio 17, 2019 em 10:26 pm
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    Muito boa reportagem, trazendo a casa noturna Madame, valorizando-a com a história do lugar, seu atual interior, programação, qual público pode frequentar, valores e localização. Parabéns aos repórteres Alex dos Silva Rosa e a Thifany C. Fernandes, ao editor Matheus L. Lizardo, à Fotografa: Barbara Sanches, também à Pauteira e multimídia: Emilly J. Caetano

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