Arte que inspira e conscientiza

Além de expressar sentimentos e emoções, todo artista procura sobreviver através da sua arte.

 

Reportagem por Joyce Nayra e Fernanda Souza

São Paulo está se tornando cada vez mais um polo cultural. Por abrigar artistas de diversos estilos, vários locais da metrópole acabaram por se tornar pontos de referência para turistas que vem visitar a capital.
Viver de arte nem sempre é fácil, alguns artistas acabam enfrentando dificuldades, como nos conta o grafiteiro Márcio Reis, conhecido como Banguone, de 40 anos.

Acervo pessoal do grafiteiro Banguone

Formado em produção audiovisual e grafiteiro há 20 anos, tem como influência os anos 90 e artistas como Os Gêmeos e Vitché. Sua maior inspiração é a filha e o poder transformador que o grafite possui.
A maior dificuldade que enfrentou foi a sociedade aceitar sua produção como arte e não como forma de vandalismo, pois o grafite surgiu da pichação, uma atividade transgressora. Com o avanço da internet, o grafite tomou uma enorme proporção, pois tornou possível a divulgação da arte. Um exemplo é o canal Bate Papo com Graffiti, apresentado pelo Banguone, lá ele entrevista a galera da street art. Um dos pontos que mais aborda é a famosa questão “Dá para viver de arte no Brasil?”. O próprio artista responde: “Dá pra viver de arte no Brasil, mas é muito difícil”.
Em São Paulo, esta arte gerou uma grande polêmica que envolveu a prefeitura da cidade, através da lei Cidade Limpa, inclusive com diversos grafites que continuam sendo apagados. “Dificultou bastante, cidades como São Bernardo já estão multando em R$ 6 mil, direto no CPF, para quem descumprir a lei. O fato de não existir uma curadoria por um profissional da área faz com que sejam apagados, sem ao menos estudarem a importância que aquela obra possui”, afirma o grafiteiro.

Acervo pessoal do grafiteiro Banguone

Com o projeto Inclusão e Humanização através da Arte, Banguone busca levar para as escolas e ONGs informação e cultura, a fim de ajudar na formação de cidadãos mais críticos. Apesar de ser daltônico, não desistiu e através da arte realiza seus sonhos. “Quero mostrar para as pessoas que sonhos são resistência.”

Para as urbanistas Sandrine Alves e Viviane Barbosa, é importante reconhecer o grafite como uma expressão artística, já que também é um meio de comunicação com a sociedade, “mas precisa ser contextualizado em um único espaço, apropriado para receber arte e cultura, porque tudo que é demais vira exagero”.

Confira a entrevista com Marcio Reis, o Banguone


Diversidade cultural em um só lugar

Aos finais de semana, a Avenida Paulista atrai um público de diversos lugares, como é o caso das jovens de Mogi das Cruzes e São José que estavam fazendo sua primeira visita. Larissa Portela, Estefane Lopes e Cibelle Faria optaram pela Paulista por ser acessível e por sua diversidade gastronômica, ficaram encantadas com a arquitetura histórica e com os grafites.

Larissa Portela, Estefane Lopes e Cibelle Faria, Av. Paulista – Foto por Douglas Gomes

Para conhecer pessoas novas e curtir a diversidade artística que o lugar proporciona, principalmente aos domingos, Bruna Próspero sempre visita a avenida Paulista. “As apresentações são bem ricas”, diz. Ela acredita que o grafite traz vida para a cidade e se tornou parte do cotidiano do paulistano.

Artista de rua Carlos Alberto – Foto por Douglas Gomes

Além de ser um ponto turístico, muitos artistas escolhem o local para expor seus trabalhos. O chileno Carlos Alberto trabalhou na marinha por dez anos e conta: “Sempre fui um artista frustrado”. Após passar uma temporada na Europa trabalhando com o circo, o seu lado artístico aflorou, mas somente no Brasil se encontrou como pintor. “Gostaria que a arte fosse para todos, mas a maior dificuldade está na venda dos quadros, já que muitas pessoas não se interessam.” Carlos pinta na Paulista há dois anos e acabou escolhendo a Avenida pela diversidade e por acreditar no poder aquisitivo das pessoas que a frequentam. Tem como inspiração a Pop Art, se encantou pelas cores fortes, pelo cômico e principalmente pela ironia. Para ele, a arte liberta e se torna uma porta para abrir a mente.

Quadros do artista de rua Carlos Alberto – Foto por Douglas Gomes

Não é apenas em São Paulo que os profissionais têm dificuldade para começar a viver de sua arte. A artista plástica Carolina Alves, 24, Porto Alegre, conta que já quis ser veterinária e no final da adolescência “fui blogueirinha”. Foi através da curiosidade de saber como eram feitas as tirinhas que faziam sucesso na internet que Carolina começou a pesquisar e a desenvolver seu trabalho, buscando inspiração em acontecimentos de seu cotidiano. Sem ainda ter um estilo definido, ela começou a publicar seu trabalho em uma página do Facebook com o apoio de seus amigos. “Precisava vomitar o que tinha no meu coração postando na internet como se fosse um desabafo”, conta a artista.

Acervo pessoal de Carolina Alves

Entre 2015 e 2016, através do livro Desenhado com o lado direito do cérebro, da autora Betty Edwards, a catarinense começou a estudar poses, arte realista e foi ali que encontrou o estilo de contorno cego Blind Contour onde o artista tapa sua visão e só vê o que desenhou quando fica pronto. Hoje o Blind Contour é a sua marca e se considera pioneira deste método, pois quando começou nenhum artista brasileiro usava esta técnica. Ela se assustou com a forma como tudo aconteceu, porque nunca imaginou seguir carreira e conseguir 22 mil seguidores.

Acervo pessoal de Carolina Alves

“Através da internet foi possível ter mais espaço para a divulgação e a venda de trabalhos artísticos. Há dez anos não seria tão fácil conseguir notoriedade”, conta Carolina. Influenciada por artistas como Lykke Li e David Lynch, sua principal inspiração é a natureza e sua família. Ainda este ano, pretende criar sua própria marca de roupas e lançar o primeiro livro chamado “Rir de tristeza, chorar de alegria”, com mais cinco mulheres poetas e totalmente ilustrado por ela.

Acervo pessoal de Carolina Alves

Ao falar sobre política, a artista acredita que a arte é a área mais importante e democrática que existe, pois é possível ensinar e conscientizar, principalmente os mais jovens, que usam a internet. “Além de eternizar momentos importantes, é uma ferramenta de resistência e de luta. Neste caso, não é só uma criação plástica, visual ou sonora, é aula, é protesto, é grito.”


Saiba mais

Conheça a arte desenvolvida por Banguone

Programa Bate Papo com Graffiti

Matéria produzida por Equipe New Direction
Revisor: Kelvim Caires
Repórter/Redatora: Joyce Nayra
Editor: Vitor Hugo
Mídias Sociais / Planejamento Multimídia/Reporter: Fernanda Souza
Fotógrafo: Douglas Gomes
Pauteiro: Leonardo Bettanim

6 comentários em “Arte que inspira e conscientiza

  • abril 12, 2019 em 11:40 am
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    Muito legal falar de grafite sem esquecer do picho!

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  • abril 12, 2019 em 12:58 pm
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    Excelente matéria, tema muito bem abordado e o vídeo ficou sensacional.
    Parabéns pelo trabalho!

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  • abril 13, 2019 em 12:54 pm
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    Curti demais editar essa matéria, quero agradecer à todos da equipe e aos colaboradores, por dado opiniões totalmente relevantes sobre o tema proposto! #blessed

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  • abril 13, 2019 em 12:57 pm
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    Gostaria de parabenizar toda a equipe envolvida nesta matéria e agradecer o cuidado, delicadeza e dedicação aplicada na qual me fez sentir muito orgulho e ser reconhecido como artista e ser humano que quer mudar o mundo através da arte!
    GRATIDÃO 🙏🏽

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  • abril 13, 2019 em 10:52 pm
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    Parabéns. Sua força de vontade de expressar a arte ensinando os jovens e a todos conhecerem o lado bom e bonito que transforma o vandalismo visto pelo tabu de que o grafite é coisa de maloqueiro é não uma arte. Felicidades guerreiro e toda terça não podemos esquecer do programa apresentado por vossa senhoria. Papo de graffiti no YouTube…..

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