Carandiru: antigo presídio torna-se local de cultura e lazer

Privação, sofrimento e punição. Hoje liberdade, sorrisos e histórias pra contar. Com cultura, lazer, esporte, educação e muita área verde, o Parque da Juventude está rodeado de todas essas atividades e lembranças, que marcam o presente e futuro, ao mesmo tempo em que trazem as memórias do passado no Museu Penitenciário Paulista, com pertences dos ex-detentos.

Por: Adriana Simioni e Larissa Mendes

 

O parque erguido sobre os escombros do antigo Complexo Penitenciário Carandiru foi inaugurado em 2003 na gestão do ex-governador Geraldo Alckmin, mas em dezembro de 2018 houve a atualização do nome para Parque da Juventude Dom Paulo Evaristo Arns pelo ex-governador Márcio França.

Ele se localiza ao lado do Metrô Carandiru, na zona norte de São Paulo. O parque conta com uma ampla área verde e espaço canino cercado, patrocinado pela empresa Petz onde os animais podem ficar soltos. Mas os donos dos cães das raças como pitbull, rottweiler e similares deverão cumprir a lei Decreto Nº 48.533, de 9 de março de 2004, que indica o uso de coleiras, focinheiras e outros.

Também possui a Biblioteca São Paulo estabelecida em 2010 cujo acervo possui uma média de 43 mil títulos, sendo que em 2018 foram contabilizadas em torno de 295 mil visitas. Ao lado, há um grande espaço aberto onde o parque recebe eventos e shows, normalmente religiosos. Possui o Acessa SP dentro do Campus da ETEC, por meio do qual os usuários podem usar gratuitamente a internet. No local, são oferecidos cursos gratuitos como Enfermagem, Teatro, Design de Interiores e outros. A mais conhecida é a ETEC de Artes. Ambas as construções mantiveram a estrutura predial da época da Casa de Detenção, havendo alterações somente nos tamanhos das salas, que antes eram celas dos Pavilhões 4 e 7.

O Parque tem em sua totalidade uma área de 240 mil m², distribuídos em oito quadras poliesportivas, duas quadras de tênis, pistas de skate, ciclovia, playground, pista para caminhada e corrida, estações de ginástica, sendo uma delas exclusiva para pessoas com deficiência. No projeto inicial, haveria um Batalhão da Polícia Militar dentro do parque, mas segundo informações disponibilizadas pelo Administrador, por motivo de falta de verba isso não ocorreu. Porém, a administração atual conseguiu que a Polícia Militar desse apoio integral ao parque enquanto aberto. Policiais de carros, a pé e até mesmo de bicicleta circulam e recebem apoio da empresa terceirizada de vigilância.

 

Mapa do parque. Acervo da administração.

 

Biblioteca São Paulo. Foto: Adriana Simioni

 

Imagem retirada do site do MPP Carandiru pavilhão 4 ETEC de Artes, antigo pavilhão 4. Foto: Adriana Simioni

 

Espaço canino. Foto: Quézia Alves

 

No prédio da Administração do Parque, foi criada uma horta comunitária, que proporciona alimentação saudável a grupos de moradores e usuários da região. A horta possui temperos e ervas cultivados de forma orgânica, sem agressões ao meio ambiente. Além disso, o objetivo é capacitar usuários para criação com objetos reutilizáveis (como garrafas pet) e educação ambiental às crianças, contando com o cuidado e cultivo da horta apoiado por professores e alunos da ETEC. Sobre preservar o meio ambiente o parque tem uma reserva remanescente de 16 mil m² da Mata Atlântica, onde antes era realizada a atividade de arborismo/arvorismo. Segundo Cícero Domingos, administrador do parque e major aposentado da Polícia Militar, há uma lenda de que no meio da mata vive um personagem chamado pelos frequentadores de “Homem do Facão” e por esse motivo as procuras para as atividades ficaram escassas “Sinceramente, eu nunca presenciei, mas mais de um vigilante afirmou ter visto essa figura”, contou, entre risos.

O Parque ainda conta com atrações como estátuas e monumentos: O Peregrino de Santiago de Compostela, Espheropeia, Sonho de Liberdade, Marco da Paz e as Ruínas/Muralhas do Complexo Penitenciário Carandiru.

 

Espaço reservado da horta. Foto: Adriana Simioni

 

Reserva da Mata Atlântica, aparelhos de arborismo/arvorismo. Foto: Adriana Simioni

 

Espheropeia Acervo do Parque.

 

Sonho de Liberdade. Foto: Larissa Mendes

 

Marco da Paz. Foto: Adriana Simioni

 

Ruinas e Muralhas do Complexo Penitenciário Carandiru. 1ª imagem: Passarela utilizada pelos Sentinelas, com vista privilegiada da Penitenciaria. 2ª imagem: escadarias com passagens para chegar na passarela das sentinelas. 3ª imagem: Ruinas do Carandiru II. 4ª imagem: Ruinas do Carandiru II, com divisórias de celas. Fotos: Adriana Simioni

 

O Museu Penitenciário Paulista

O Museu foi inaugurado em 28 de julho de 2014 e é vizinho do Parque da Juventude. Ele traz em suas salas internas e na área externa lembranças e peças da época da Casa de Detenção. O intuito é apresentar aos visitantes imagens, objetos e documentos mostrando como era o cotidiano dos ex-detentos. Entre as lembranças ali mostradas estão aparelhos caseiros de tatuagens feitos dentro da penitenciária, esculturas, microondas adaptado, quadros e pinturas realizadas enquanto cumpriam pena ou aguardavam o julgamento. Porém, não foram somente esses itens cotidianos, os detentos também usavam a criatividade para recriar réplicas de armas de fogo e espadas por exemplo. Além dos artesanatos a estrutura do museu manteve algumas memórias, aberta à visitação, como o local onde se encontra as solitárias, onde antes os presos permaneciam como forma de represália.

A ideia central do museu é proporcionar reflexão aos visitantes sobre a memória da penitenciária, trazendo artesanatos e obras criadas pelos que ali cumpriam pena. O intuito era a ressocialização com a sociedade.

 

Fachada do Museu Penitenciário Paulista – MPP Foto: Larissa Mendes

 

Escultura: réplica de uma moto e a espada de samurai criada pelos detentos. Foto: Larissa Mendes

 

Solitárias. Foto: Adriana Simioni

 

Escombros da implosão. Foto: Adriana Simioni

 

Aparelho criado pelos detentos dentro do presídio para realizar tatuagens nos presos. Foto: Adriana Simioni

 

O Museu está aberto ao público em geral. Para visitá-lo, bastar ir à recepção com documento original com foto (RG, CNH). Não é permitido a entrada de bolsas e/ou sacolas e por esse motivo deve-se apresentar o documento com foto na recepção para guardar pertences. O uso de aparelhos para fotografar e filmar são permitidos, porém sem flash.

 

A Casa de Detenção, Carandiru.

O Complexo Penitenciário Carandiru mundialmente conhecido foi inaugurado na década de 1920. Sua criação teve base no Decreto Estadual 9.789, que eliminava a Cadeia Pública e Presídio Político da Capital. O decreto tinha como função separar réus primários de reincidentes e por natureza de delito. Em toda sua trajetória abrigou mais de oito mil pessoas. As histórias sobre o local e o que ali acontecia o fizeram ainda maior do que já era, pois foi considerado como o maior presídio da América Latina, o segundo do mundo e o mais seguro. Porém, as rebeliões eram recorrentes e com isso cada vez mais o Carandiru era comentado. O auge foi em 1992, quando houve a rebelião no pavilhão 9 com intuito de invadir o pavilhão 8. Para isso não ocorrer por ordens governamentais a Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo invadiu a penitenciária, com baixa oficial de 111 presos mortos e identificados. O episódio ficou mundialmente e popularmente conhecido como Massacre do Carandiru, de onde derivou o Livro Carandiru de Drauzio Varella que gerou o filme Carandiru.

Mesmo após esse incidente, o presídio continuou suas atividades, mas em 2001 houve outra grande operação-rebelião, esquematizada pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). O comando conseguiu sincronizar trinta unidades prisionais para que se rebelassem ao mesmo tempo. Resultou em 16 mortos e familiares de presos feridos. Mas só em 2002 ocorreu o fechamento oficial. No dia 9 de dezembro do mesmo ano, os pavilhões 6,8 e 9 foram implodidos. Em sua totalidade foram 46 anos de existência do Complexo Penitenciário.

Dessa  história, surgiram filmes, músicas célebres como a do grupo de Rap Racionais Mc’s “Diário de um detento”, além da terceira temporada do seriado americano Prison Break e diversos livros como Memórias de um Sobrevivente,de Luís Alberto Mendes, Pavilhão 9, Paixão e morte no Carandiru de Hosmany Ramos e entre outros.

E mesmo hoje com todos esses estigmas de violência e perdas o local deu a volta por cima com a construção do parque, presenteando a comunidade que ali vive um novo começo. De acordo com Pedro A. 16 anos, estudante da ETEC morador da região e frequentador, acredita que o parque é positivo para sociedade, mesmo utilizando a maior parte do tempo as quadras de basquete, relata utilidade das trilhas de caminhada e as quadras. Mas cita que no início do parque foi muito impactante para sua família pela drástica mudança de cenário. Mas segundo José. M, (79) taxista a 40 anos trabalha no ponto de taxi ao lado do parque, explica que não o utiliza, mas acha muito útil para moradores do bairro. Relembra que na época da Casa de Detenção sentia-se mais seguro por ter mais movimento e policiamento.

 

 

 

Parque da Juventude – Dom Paulo Evaristo Arns:

Endereço:

Av. Cruzeiro do Sul, 2630 – Carandiru – Zona Norte SP

Av. Zaki Narchi, 1309 – Carandiru – Zona Norte SP

Horário de Funcionamento: Todos os dias 06:00 às 19:00

Estacionamento: O parque não possui estacionamento próprio, porém os visitantes possuem duas opções pagas. Av. Zaki Narchi,1309 para 62 vagas e na Av. Cruzeiro do Sul, 2630 para 260 vagas.

Entrada: Gratuita

 

Museu Penitenciário Paulista – MPP

Endereço: Av. Zaki Narchi, 1207 – Carandiru – Zona Norte SP

Horário de Funcionamento: segunda à sexta-feira 09:00 às 16:00

Entrada: Gratuita

 

Biblioteca São Paulo

Endereço: Av. Cruzeiro do Sul, 2630 – Carandiru – Zona Norte SP

Horário de Funcionamento: Terça à Domingo 09:30 às 18:30

Entrada: Gratuita

  • GALERIA

    1º Imagem campus das ETEC’s. 2º imagem pista de skate. 3º imagem quadra de tênis. 4º imagem aparelhos de ginástica, local onde antes era o pavilhão 9. Foto: Larissa Mendes e acervo do parque

     

 

Adriana Simioni – Redatora e Editora
Larissa Mendes – Revisora, Redatora e Planejamento Multimídia
Vinícius Araújo – Pauteiro e Repórter
Quézia Alves – Fotógrafa e Redes Sociais

Um comentário em “Carandiru: antigo presídio torna-se local de cultura e lazer

  • março 29, 2019 em 2:09 am
    Permalink

    Adorei, muito bem apresentada a Matéria , estigou a curiosidade de conhecer,nao só a parte do Parque , o Museu,o Espaço Pet, Biblioteca …
    Legal ter colocado o Mapa para a Orientação dos Usuários.

    Resposta

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