Farra do Boi: como o ritual antes visto como cultura se tornou um crime ambiental

Karine Gomes e Marianne Silva

Antecedente da Semana Santa, a quaresma brasileira é um uma celebração cercada de rituais que historiadores relacionam a antiguidade. Uma das tradições é a cultura da Farra do Boi. A prática consiste em soltar o animal pela cidade e fazê-lo perseguir os participantes. Após ser exposto a diversas situações violentas, na maioria dos casos é imobilizado e morto em seguida. No ritual, o boi é visto como o representante de Judas, o traidor de Cristo, e a simbologia religiosa faz com que os farristas tenham carta branca e atuem sem culpa contra o animal.

 

Farra do Boi na Ilha de Açores, Portugal Foto: Defesa Animal Mundial

 

A tradição criada por portugueses se iniciou na Ilha de Açores (Portugal) e foi trazida ao Brasil há duzentos anos, ganhando popularidade entre os cristãos. Os portugueses colonizaram a cidade de Governador Celso Ramos, região de Santa Catarina, e o evento com bases religiosas faz alusão a “malhar o Judas”. No início, se chamava Boi de Corda ou Boi de Laço, e mais tarde veio a ser denominada Farra do Boi, numa forma de abrasileirar a cultura. Atualmente, se percebe que as fundamentações religiosas do ritual se perderam pelo tempo e apenas a “festa” com intuito de entreter é o principal motivo para que continue acontecendo. Embora o ato tenha uma origem de cunho cultural, a prática é proibida por lei desde 1997. Para o ativista animalista, Alex Fichler, 27 anos, que faz parte do Coletivo Intervenção Vegana Brasil, a motivação é “retrógrada, arcaica, exploratória e atroz, deve ser repudiada, combatida e desarticulada, pois os animais são seres vivos, assim como nós, e devem ser respeitados, não usados para entretenimento ou exploração”.

 

Alex Fichler faz apelo pelo fim da Farra do Boi. Foto: Perfil pessoal

 

Prática criminosa

Desde 1997, a Farra do Boi é proibida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ser uma prática criminosa que se enquadra na lei de Crimes Ambientais, prevendo prisão de até um ano para os envolvidos. Porém, mesmo com a proibição, o evento aconteceu em diversos locais nesse feriado de Páscoa, justamente o período em que mais há registros. Para Alex Fichler, o descaso do governo faz com que os farristas não temam as leis e continuem praticando o ato. “As leis são ilusórias. Talvez o fato de ser proibido atice ainda mais esse tipo de gente. Enquanto o governo não se posicionar oficialmente, a crueldade continuará acontecendo. Existem até projetos de lei, mas tudo no papel, infelizmente. Enquanto isso para evitar que a Farra aconteça somente os ativistas e populares revoltados falam pelos animais. Não recebemos ajuda alguma do governo, utilizamos recursos próprios e quando não temos condições fazemos vaquinhas, rifas, sorteios etc. A polícia até ajuda nas ocorrências, mas apenas no momento. Eles apartam a farra às 22h e quando é meia noite os farristas estão nas ruas novamente”, conta.

                                                           “Quando o homem avança contra o animal,
                                                             quem recua é a humanidade.”  Alex Fichler, ativista do Coletivo Intervenção Vegana Brasil

 

Embora a Farra do Boi aconteça em diversas regiões brasileiras, Santa Catarina é disparado o estado em que mais há ocorrências. Ao longo da última Semana Santa, foram relatados diversos casos, principalmente em Governador Celso Ramos, justamente a cidade matriz da Farra. Moradores da região denunciaram as atrocidades para a Polícia Militar e ativistas  que lutam pelo fim da prática há anos. “Muitos animais foram vistos em péssimas condições. Um deles, que foi recolhido pela Polícia Militar e pelo Grupo de Operações de Resgate, estava extremamente ferido, com um dos chifres quebrado e sangrando”.

 

Animal vitima da Farra Do Boi resgatado por ativistas Foto: facebook

 

Tortura não é cultura 

Embora a cultura da Farra do Boi seja uma prática cruel contra o animal, o objetivo dos farristas não é matar o boi. Porém, engana-se quem acha que a vida do animal é poupada por compaixão. Muito bois usados nas farras são alugados e, quando devolvidos vivos, os compradores pagam menos ao fornecedor. Além disso, o boi vivo após a farra é escondido por um tempo, permitindo que descanse para ser usado mais tarde para outra seção de tortura, diminuindo os gastos dos farristas. Porém, na maioria dos casos, muitos acabam morrendo devido aos ferimentos causados por pauladas e pedradas. Mesmo quando resgatado pelos ativistas, o animal não tem chance de sobrevida, pois segundo normas da Companhia Agrícola de Desenvolvimento de Santa Catarina(CIDASC), o animal torna-se inadequado para consumo e segue para o abate.

Recentemente, o Grupo de Advocacia Animalista Voluntária (GAAV),  com apoio de diversas ONGs e ativistas, inclusive, entraram com uma ação civil pública para mudar essa diretriz do CIDASC e poupar a vida dos animais resgatados. Além da iniciativa, muitas outras ações estão sendo realizadas para conscientizar a população sobre a prática da Farra do Boi, como campanhas diárias nas redes sociais, eventos e palestras escolares.

 

 

Karine Gomes - Redatora e editora
Camila Alves - Revisora
Thailize Oliveira - Pauteira
Jeniffer Alves - Editora
Marianne Silva - Editora e pauteira

4 comentários em “Farra do Boi: como o ritual antes visto como cultura se tornou um crime ambiental

  • abril 27, 2019 em 12:13 pm
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    Tava mais que na hora de tomar conciencia sobre o óbvio Crime covarde e absurdo onde a vitima um pobre animal indefeso acoado e linxado por sádicos assassinos encobertos por um ritual que só exista na mente perversa de psicoparas… Onde está escrito que deus pediu isso na Páscoa? Onde me mostra em que momento linxar um bichinho desesperado é a lição de amor? Cristo só ensinou amor… E nossas criancas recebendo essa cultura podre e inútil o que poderemos esperar delas na vida adulta? Somente o retorno do descaso e da crueldade! Fico muito feliz pela proibição e desejo que os que não respeitarem essa lei sejam presos…. Sem direito a fiança e que o animalzinho machucado seja tratado e encaminhado para um santuario é pouco perto das dores e desespero do animal que o único erro que cometeu foi ter sido de um tutor assassino, cruel e covarde! NÃO deve ter familia nem ninguem nesse mundo, porque qualquer pessoa em sã consciência jamais doaria um bichinho inocente para ser machuado por delinquentes! Eu DIGO NÃO PARA MAUS TRATOS AOS ANIMAIS! CHEGA👐🐃🖤🇧🇷

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  • abril 27, 2019 em 6:02 pm
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    Praga de cristão, cristão é JESUS CRISTO que é a ESSÊNCIA, não um bando de psicopatas MEDIEVAIS que ficam perturbando um ANIMAL INOCENTE para satisfazer o ego com o sofrimento #ANIMAL. Tenho nojo desse topo de CRUELDADE, incluindo rodeio, vaquejada, tourada e essa porcaria ai, e de quem participa 😡

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  • abril 28, 2019 em 12:11 am
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    Concordo inteiramente com a Ana Cristina Severiano Bezerra e com a Ivania Candido que escreveram acima sobre a barbárie, crueldade e insanidade dos psicopatas que se divertem com o sofrimento dos animais. Isto não é normal!! Incluo aqui as autoridades que legislam contra os animais com o pretexto de que seja cultura. ou será uma maneira de angariar votos?? Cultura não é!. Não estamos mais na Idade das trevas. Tudo evoluiu, menos os monstruosos humanos.Chega!!! Vamos acabar os os shows de horrores e deixar os animais em paz! Quem não quer proteger, não maltrate!

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