Grupo de dança afro mantém vivas as tradições africanas

Babalotim reúne moradores da região de São Miguel há 30 anos.

Por Luiz Gustavo Crispim

O respeito às tradições culturais e aos laços familiares são aspectos que explicam a longevidade do grupo de dança afro Babalotim, que atua na zona leste de São Paulo.

O que começou como algo pequeno, apenas uma diversão familiar no quintal de casa, se tornou uma forma de imortalizar uma parte da história sobre a qual não falamos muito, mas que mesmo assim é um dos alicerces sobre o qual o Brasil foi erguido: a história do negro, que veio acorrentado da África até aqui, trazendo na bagagem nada além de sua cultura.

Por gerações e gerações, essas histórias foram contadas por pessoas como Solange A. Marques Camargo, que aprendeu essas tradições de sua mãe, da avó e da tataravó, que foi escrava. Da mesma forma, ensinou a seus sete filhos e agora compartilha esse passado com os onze netos. Um respeito que transcende gerações, e, se depender de Solange, continuará, já que ela quer “passar para a frente a nossa cultura”.

Solange exibe alguns de seus diplomas de honra ao mérito. Foto: Luiz Gustavo

Do quintal para o mundo

Tudo começou de forma inocente. Quando pequena, Solange assistia às danças tradicionais feitas pela sua família no quintal de casa. Enquanto crescia, como irmã mais velha, ensinava as danças típicas para os mais novos, começando muito cedo a transmitir sua herança cultural.

Quando se mudou para São Miguel Paulista, Solange viu que não havia nenhum ambiente parecido com o que tinha em casa, onde fosse possível aprender sobre as tradições do povo negro. Foi em 1987, quando foi aberta uma casa de cultura em São Miguel, que Solange se pôs a trabalhar para que as pessoas pudessem aprender mais sobre o que conhecia desde criança. Começou dando palpites e logo se tornou oficineira na Casa de Cultura.

Em 1988, estava formado o grupo Babalotim, na oficina Luiz Gonzaga. O grupo começou com as irmãs, mas não demorou muito até que toda a família entrasse na dança. Atualmente, Solange comanda a equipe com seu marido, Benedito, e seus filhos, que dançam e fazem percussão. Contribuiu com diversos projetos e eventos, como a Semana da Consciência Negra do Teatro Itaquaquecetuba, em 1993, o Programa Oficina Culturais Prefeitura de Guarulhos (2001/2010), o Teatro Padre Bento e muitos outros. Recentemente, contribuiu para a produção do livro “Fórum de Cultura da Zona Leste: nenhum passo atrás”. Assim tem sido por mais de 30 anos, embora não sem desafios.

Apresentação do Grupo Babalotim na festa de S. Benedito em Aparecida do Norte. Foto: Divulgação

Uma longa jornada

O grupo sempre enfrentou dificuldades financeiras, de transporte e de divulgação. Embora antes tivessem a ajuda da prefeitura, hoje deixaram de recebê-la. Também não conseguiram ser aceitos em editais, não por falta de tentativas. Sem cobrar nada daqueles que participam, pois não tem nenhum fim lucrativo, o grupo faz o que pode. E mostra que pode muito. Tendo três décadas de tradição, não só já inspiraram muitos outros grupos de dança afro, como também se apresentaram por toda São Paulo e até mesmo em outros estados, como Minas Gerais e Bahia.

Alguns dos muitos troféus do Grupo Babalotim. Foto: Luiz Gustavo

As mudanças são visíveis. O que Solange aprendeu em casa também foi ensinado aos filhos e às pessoas que convivem com sua família, sejam elas do grupo ou apenas vizinhos. Uma paixão tão grande por sua história que é até mesmo percebida por quem vem de fora do país, já que muitos imigrantes africanos que chegam ao Brasil têm um apreço muito grande pelo que o grupo faz e acabam aprendendo coisas sobre sua cultura que eles mesmos não sabiam, pois foram esquecidas. Isso tudo é fruto de trabalho duro para manter viva a história. Mas, infelizmente, nem todos contribuem.

À sombra do descaso

A falta de investimentos públicos prejudica todas as áreas da sociedade, mas a cultura é a que mais sofre. Recentemente, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi destruído por um incêndio, devido à falta de manutenção, e inúmeras obras e documentos históricos estão perdidos para sempre. Na mesma linha, os grafites abstratos e coloridos, que antes decoravam ruas e edifícios, foram removidos na maior parte de São Paulo, deixando nada além de muros estéreis em cores planas que só fazem acumular sujeira.

E nas periferias é ainda pior, sendo que o pouco investimento é alocado para regiões centrais, enquanto as áreas mais pobres são deixadas à deriva. Os inúmeros cortes e a falta de investimento na cultura não são novidade, mas são igualmente tristes.

Em meio a esse cenário, pessoas como Solange e os membros do grupo Babalotim ajudam a manter a história viva, para que as gerações futuras não se esqueçam do caminho que foi percorrido e, acima de tudo, cultivem o amor por ele.

 Pauta: Heloísa Freitas
 Repórter/Redator: Luiz Gustavo Crispim
 Editor: Tatiane Ferreira
 Revisão/Redes Sociais: Wallas Novais

4 comentários em “Grupo de dança afro mantém vivas as tradições africanas

  • março 29, 2019 em 10:48 pm
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    Excelente matéria, Parabéns aos envolvidos.

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  • abril 18, 2019 em 8:06 am
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    Faço parte desta história, e com muito orgulho do grupo Babalotim e da Garra da Solange Camargo. Parabenizo por continuar , a cultura do nosso povo .

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  • abril 18, 2019 em 8:32 pm
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    Parabéns, no ano passado fiz parte deste grupo na festa de São Benedito em Aparecida do Norte! Muito esmero e dedicação de todos!

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