Documentário sobre movimento dos secundaristas ganha prêmios em Berlim

No final do ano letivo de 2015, os estudantes entre 15 e 17 anos ganharam notoriedade após ocupar mais de 200 escolas contra a reorganização proposta pelo governo

Por Estela Aguiar

O documentário “Espero Tua (Re)volta”, dirigido por Eliza Capai, foi vencedor, em fevereiro de 2019, do Amnesty International Film Prizee e do Peace Film Prizedo Festival em Berlim, Alemanha. O primeiro premia o autor do filme que melhor aborda questões relacionadas aos Direitos Humanos e o segundo coroa a produção que se destaca com uma poderosa mensagem de paz e execução estética habilidosa dos seus temas. O longa relata a luta do Movimento Secundarista sob os diferentes olhares de três estudantes do Estado de São Paulo – cidade com o maior PIB do Brasil, porém com grandes problemas na educação pública.
O Movimento Secundarista surgiu em resposta à reorganização escolar proposta pelo Ex-Governador Geraldo Alckmin. O projeto visava fechar por volta de 90 escolas e remanejar 300 mil alunos. Em 10 novembro de 2015, a ocupação da Escola Estadual Fernão Dias Paes, uma das escolas mais tradicionais de São Paulo, tornou-se um marco para que a luta dos secundaristas se espalhasse pelo território nacional.
Após a intensa pressão estudantil e a ocupação de centenas de instituições de ensino, a reorganização foi revogada. Para uma das lideranças do movimento, Marcela de Jesus – também protagonista do longa, a repercussão do protesto foi uma surpresa. “Nunca imaginamos que teríamos essa força, eram mais de 200 escolas ocupadas e, mesmo com repressão, nós sabíamos que a população estava vendo”, declarou em entrevista exclusiva ao Código AUN.


OS SECUNDARISTAS EM BERLIM
A educação pública brasileira carece de investimentos do Governo Federal. De acordo com os dados divulgados em dezembro de 2018 pelo movimento “Todos pela Educação”, a cada dez jovens, quatro não concluíram o ensino médio em 2017. Foi nesse cenário de evasão que os secundaristas se colocaram na linha de frente e se mantiveram em protesto durante 40 dias.
De acordo com Eliza Capai, diretora do documentário, a retomada desta discussão em Berlim, após a exibição do filme, fez com que a narrativa tivesse uma recepção positiva, além de chamar atenção para o debate sobre a educação no país.

Acervo pessoal de Eliza Capai

Eliza relatou que historicamente, no Brasil, existe uma tradição de reprimir movimentos estudantis. A diretora comenta que, ao final do filme, fica o questionamento de qual será o destino do movimento secundarista, futuramente.
Segundo Eliza, “Espero Tua (Re)volta” não possui uma narrativa linear, é acelerado, tem uma linguagem jovem e mostra diferentes olhares e complexidades sob as perspectivas dos três protagonistas e narradores. Essa escolha se deu justamente porque no momento das ocupações, cada grupo estudantil organizado nas mais de 200 escolas ocupadas era singular, agindo e pensando particularmente, definindo a posição supra partidário do documentário. Eliza foi categórica ao dizer que sua intenção foi mostrar o que de fato aconteceu, deixando um registro histórico. “O desejo do filme é contar o que houve entre 2015 e 2016, sob olhares diversos”, afirma.
A documentarista ainda conta que seu interesse em abordar essa narrativa se deu pela força dos jovens, que muitas vezes travam lutas internas. Além de virem da periferia e sem acessos básicos, os estudantes conseguiram realizar um alto grau de organização, de fato, chamando a atenção de toda sociedade e mudando a decisão do Governo.

 

Acervo pessoal de Marcela de Jesus

Para Marcela, representar a luta dos secundaristas no exterior é uma grande vitória. “Fui representando todos os secundaristas que lutaram junto comigo. Muitos não sabiam o que passávamos na luta: perseguições, agressões, todos ficaram meio assustados”, afirma a estudante. Segundo Eliza, “Espero Tua (Re)volta” não possui uma narrativa linear, é acelerado, tem uma linguagem jovem e mostra diferentes olhares e complexidades sob as perspectivas dos três protagonistas e narradores. A documentarista ainda conta que seu interesse em abordar essa narrativa se deu pela força dos jovens, que muitas vezes travam lutas internas. Além de, virem da periferia e sem acessos básicos, os estudantes conseguiram realizar um alto grau de organização, de fato, chamando a atenção de toda sociedade e mudando a decisão do Governo.


GOVERNO JOÃO DÓRIA

Para Marcela, o atual governo quer que as pessoas esqueçam o movimento que abalou São Paulo no final de 2015. “Deixar esse movimento vivo em forma de trabalho de faculdade, exposição ou em teatro, é muito importante para não deixar a história morrer”, declara a protagonista.
Eliza faz duras críticas: “Frente a isso, a resistência tem que vir de outras formas, quanto maior for opressor, o governo, maiores são as reações dos grupos estudantis.”
O filme foi um sucesso fora do país, mas ainda não tem data de estreia aqui. O documentário participará de festivais brasileiros de cinema e depois será feita uma distribuição por todo o território nacional. O longa também vai ao ar pela GloboNews e pelo Canal Curta, ainda sem data oficial de lançamento.

Trailer oficial do documentário – Espero Tua (Re)volta!


Créditos da Publicação:
Fotografia/Editoria: Gabriela Cuerba (coletora das imagens de acervos dos entrevistados).
Revisor/Editoria: Vitor Hugo
Repórter: Estela Aguiar
Pauteira/Social Media: Mônica Moreira
Imagem de Destaque: Imagem cedida do acervo pessoal de Eliza Capai, em Berlim.

3 comentários em “Documentário sobre movimento dos secundaristas ganha prêmios em Berlim

  • março 16, 2019 em 1:48 am
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    Parabéns pra equipe, excelente trabalho, top demais! 👏🏻👏🏻👏🏻

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  • março 16, 2019 em 2:20 am
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    Parabéns pessoal! Eu não tinha noção da proporção que esse movimento tinha! Mesmo tendo duas irmãs que trabalham em escola pública! Que trabalho magnífico.

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  • março 16, 2019 em 2:21 am
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    Ps: amei os infográficos !

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