A luta pela educação popular de qualidade: resistência e conhecimento em espaços restritos

Cursinho pré-vestibular a preço zero funciona dentro da Universidade de São Paulo (USP) e encontra uma série de barreiras físicas e estruturais.

Por Luana Moraes

Foto por: Felipe Hiroshi

A rede Emancipa é um movimento social, iniciado em 2007, após se dissolver do cursinho Poli, que se tornou uma iniciativa comercial e não popular. A rede tem como iniciativa levar estudantes de baixa renda a universidades públicas e privadas de todo o país. O coletivo Florestan Fernandes, que já fez parte da rede Emancipa, agora continua de forma independente com a iniciativa de levar ensino pré-vestibular a zonas periféricas da cidade de São Paulo.

O Cursinho Popular Florestan Fernandes, inicialmente chamado de Cursinho Popular Butantã, concentrava-se em uma escola pública, no bairro do Rio Pequeno, na zona oeste. Em 2016, o projeto passou a ser localizado no prédio de História e Geografia dentro da Universidade de São Paulo (USP)

FEFELEST Foto por: Felipe Hiroshi

Conversamos com Lara Rocha (25), formada  em Letras pela USP, professora voluntária do Florestan Fernandes, que nos apresentou o projeto e outras frentes de cursos similares. Ela é professora de literatura, linguagens e códigos no cursinho. Ao ser questionada sobre as maiores dificuldades encontradas em lecionar para estudantes de escola pública, Lara diz que estar dentro da USP é uma luta constante.

Foto por: Felipe Hiroshi

Os professores e alunos não possuem contato com o bairro do Butantã, o que é necessário, já que prestam uma educação popular.  Os estudantes que frequentam o Florestan Fernandes saem de bairros da Grande São Paulo, como Mogi das Cruzes, Taboão da Serra, Capão Redondo e Cotia, e fazem trajetos que duram de uma a três horas. Na região do Capão Redondo, existe o cursinho popular Carolina de Jesus, mais próximo e acessível, mas os alunos preferem ir até a USP, por falta de informação e de uma divulgação mais massiva, pois os cursos têm a mesma qualidade. O Florestan acaba sendo mais procurado simplesmente por estar dentro de uma das melhores universidades públicas do país.

Os professores e coordenadores do cursinho questionam se estão atuando dentro da educação popular que esperam. Em reuniões, eles discutem sobre a permanência dentro da Universidade. O Portal Guia do Estudante do grupo Abril, divulgou em 2017 que cerca de 900 mil estudantes desistem de permanecer nos cursinhos. O número se mantém em 21% desde 2009 no país, mas em São Paulo o número de desistências cresceu de 18% em 2000, para 27% em 2009, o que chega a quase 50%. Um número alarmante.

Apesar das restrições e dificuldades enfrentadas, o cursinho popular tenta levar uma educação de qualidade e acessível a todos, realizando aulas com propostas metodológicas fora do padrão esperado. Realizam as chamadas “Aulas em Movimento” onde os professores levam os alunos para aprender sobre idade média em frente à Catedral da Sé, o nascimento da cidade de São Paulo no Vale do Anhangabaú, arte dentro do Teatro Municipal, entre outros. A maior dificuldade da educação é torná-la agradável e com sentido na vida dos alunos. Um outro método é o “Círculo”, quando os alunos discutem sobre problemas sociais, políticos e culturais. A ideia do Círculo é que todos possam falar e se observar durante o ato, também um momento de reconhecimento. Lara diz que depois das experiências no cursinho, os alunos tendem a levar essas discussões para o seu dia-a-dia, trazendo mais autonomia em suas afirmações.

Foto por: Felipe Hiroshi

Os professores enfrentam as dificuldades e acreditam que o Florestan é mais do que apenas um cursinho preparatório, é militância e resistência dentro de espaços que já foram negados para as minorias. O que eles têm por motivação para continuar exercendo esse trabalho social é o feedback dado pelos alunos: Muitos voltam depois de concluir o curso e entrar em Universidades e como forma de agradecimento pelo aprendizado, tornam-se professores voluntários.

As inscrições para o cursinho são divulgadas apenas pelo facebook, e o curso recebeu cerca de 900 alunos no primeiro dia de aula, o que gerou uma reorganização do espaço e da grade estudantil.

O curso acontece todos os sábados, das 8h30 da manhã às 18h30, no prédio de História e Geografia da USP.

Página do Facebook: https://www.facebook.com/CPFLORESTANFERNANDES/

Para conhecer outros cursinhos acesse a rede emancipa: https://redeemancipa.org.br/institucional/quem-somos/

Editor: Luana Moraes
Fotógrafia: Felipe Hiroshi
Pauteiro: Esmeralda Santos
Revisor: Nathani Ribeiro
Repórter: Elina Azevedo/Luana Moraes
Multimídia: Sandra Cotrim

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