Além da reprodução humana: entenda a importância da educação sexual nas escolas

Profissionais das áreas educacional, social e da saúde explicam o tema e desmistificam tabus.

Por Renata Fabiane

Para boa parte da sociedade brasileira, falar sobre sexo ainda é considerado um assunto íntimo e delicado. Porém, de acordo com a pesquisa Mosaico 2.0, realizada em 2016 pelo Programa de Sexualidade (ProSex) da Universidade de São Paulo (USP), os jovens têm iniciado a vida sexual cada vez mais cedo, entre 13 e 17 anos, o que comprova a urgência em tratar a questão com a devida seriedade, e, obviamente, sem censura. A precocidade das atividades sexuais aliada à falta de informações esclarecedoras sobre o tema, gera uma preocupante onda de jovens e adolescentes desorientados em relação ao seu próprio corpo e de seu parceiro(a), e, por consequência, constantemente em situações de risco. Um exemplo de irresponsabilidade muito comum é iniciar a vida sexual sem o uso de proteção, podendo assim contrair diversas Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) ou ter uma gravidez indesejada.

Alguns pais encontram dificuldades de conversar abertamente com os seus filhos sobre sexualidade, já que muitos adolescentes, por vergonha, resistem em contar os seus envolvimentos amorosos aos adultos. Há outros casos em que os papéis se invertem, e são os pais que acham que dialogar sobre sexo é constrangedor. Todo esse preconceito e indiferença em falar sobre algo tão natural do ser humano pode causar muitas complicações na convivência coletiva, como o preconceito e a violência.

Os parâmetros curriculares de Ciência, do Ministério da Educação (MEC), aconselham uma educação sexual em perspectiva biológica, cultural e social, mas na realidade essa estrutura de aprendizado nas escolas ainda é muito sutil e bastante delimitada. Apesar da visão superficial de que o sexo consiste apenas em prazer e em um ato de reprodução, visão essa que fomenta tantos tabus na sociedade, a educação sexual encara o tema como conhecimento, saúde, e, em uma percepção mais completa, até política. Através da educação sexual, jovens, adolescentes e crianças podem entender o seu corpo, suas emoções, sensações e sentimentos, além de detectar se estão sofrendo algum tipo de abuso. Ela ajuda na proteção da saúde, na conscientização e na segurança de uma prática sexual mais ponderada e ajuizada.

Segundo a psicóloga Vanessa Zelante, a educação sexual influencia positivamente na compreensão das crianças e adolescentes sobre si mesmos. “Quando a criança ou o adolescente recebe educação sexual, ele toma conhecimento do corpo, descobre que sente prazer e que pode gerar vida. Para as crianças, é importante como prevenção de abuso, pois muitas vezes elas não reconhecem o toque do outro como algo errado, o que faz com que a violência possa seguir por anos. Nos adolescentes é importante para desvendar os mitos e esclarecer dúvidas.” Vanessa também acredita que a educação sexual nas escolas precisa ser abordada de forma mais ampla. “O jovem inicia a vida sexual sem preparo. Não basta só dizer que precisa usar preservativo, tem que ir além. Hoje, temos um aumento de incidência de sífilis e AIDS entre jovens de 14 a 24 anos, como reflexo da falta de orientação. Só com muita conversa conseguimos conscientizar os jovens para o desenvolvimento de uma vida sexual mais segura e saudável”, afirma.

Quando questionada sobre a melhor faixa etária para introdução do tema, Zelante argumenta que é partir da curiosidade da criança. “A partir dos 3 anos, a criança percebe que existe diferença entre meninos e meninas. É com essa idade que elas tomam consciência dos seus órgãos genitais e podem aparecer as primeiras perguntas, que devem ser respondidas de acordo com a faixa etária.” Ela ainda atenta os pais para serem claros e objetivos: “Se ela pergunta de onde vem os bebês, você pode responder ‘da barriga da mamãe’, e pronto. Por um período essa resposta será suficiente e você disse a verdade, isso é muito importante”.

A psicóloga diz que a educação sexual traz muitos benefícios a longo prazo, e ressalta sua importância no combate ao abuso infantil. “Os benefícios são inúmeros. Uma criança que recebe orientação sexual sabe reconhecer um abuso e pode denunciar. Quando ela for adolescente vai ter mais consciência do seu corpo e limites, não cedendo às pressões externas e se prevenindo. Se tivéssemos uma educação sexual correta, os números de gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis diminuiriam.”

Muitos pais não concordam com a adoção da educação sexual no ensino regular, mas Vanessa explica que tanto a família quanto a escola têm suas funções na formação da criança e do adolescente. “Os pais devem orientar, faz parte das obrigações e responsabilidades da parentalidade, mas a escola também deve fazer isso, pois é um dos lugares onde os indivíduos se desenvolvem e deve abordar o tema. Escola e casa têm papeis diferentes, mas ambas se completam”, argumenta.

No áudio abaixo, a psicóloga afirma que a educação sexual é o melhor caminho para combater os riscos de uma vida sexual precoce.

 

Saúde e prevenção

A educação sexual orienta sobre o uso de métodos contraceptivos e o conhecimento biológico. Foto: Kleber Augusto

Maria Helena Vilela, enfermeira e ex-diretora do Instituto Kaplan, ONG paulistana que trabalha com educação sexual nas escolas, afirma que a orientação é um instrumento de saúde. “Com informação, podemos promover qualidade de vida e maior atenção à saúde sexual e reprodutiva.” Sobre a resistência da sociedade em discutir sobre a sexualidade, ela diz que o tema ainda é negligenciado. “Existem muitos tabus e a sociedade acaba evitando esse tipo de conversa. No final, os jovens continuam com informações erradas.”

Maria Helena também acredita que não há uma idade específica para a educação sexual ser inserida na vida da criança. “Quando começam as curiosidades, devemos responder da forma adequada. Não há idade, há conteúdos diferentes.” Sobre as conversas entre pais e filhos, a enfermeira diz que é necessário promover um diálogo verdadeiro, onde um pergunta e o outro responde, e em que ambos se escutam e complementam.

Quanto à educação sexual nas escolas, Helena afirma que a instituição precisa intervir de modo coletivo. “Tem que ajudar esses jovens a não engravidar, a não pegar doença, a não sofrer abuso. Também é necessário ensiná-los a respeitar a diversidade sexual.” Para ela, um adolescente sem educação sexual é mais vulnerável. “Ele está arriscado a ter uma gravidez indesejada, adquirir doenças sexualmente transmissíveis e ser abusado”, diz. A enfermeira conclui que os pais devem participar do processo. “A escola deve convidar os pais, fazer um encontro, onde apresenta e mostra o que vai ser trabalhado em seu currículo. O medo deles é porque pensam que a escola vai ensinar seus filhos a transar. Por isso, a escola tem que mostrar como vai trabalhar. É um direito deles. Felizmente, a maioria dos pais é a favor.”

A socióloga e professora Elisa Cabral afirma que a negativa de alguns pais é por desconhecerem o assunto. “Como não tiveram (educação sexual nas escolas), eles não têm conhecimento desse processo frutífero. Esse ‘não’ vem da bagagem do desconhecimento”, diz. Sobre as dúvidas referentes a uma suposta disciplina específica de educação sexual, a professora esclarece a forma como a matéria é trabalhada nas escolas estaduais de São Paulo: “O tema é abordado de forma transversal. No Ensino Fundamental, faz parte de Ciências e, no Ensino Médio, mais na Biologia, mas também pode ser desenvolvido em outras áreas. Assim, o indivíduo pode entender não somente o processo reprodutivo, como também o ser humano dentro do ambiente social, conhecendo a si e aos seus pares.”

Para entender mais sobre educação sexual nas escolas estaduais, ouça o podcast abaixo com Elisa Cabral, no qual ela relata experiências profissionais, explica de onde vem o currículo ensinado, discute as formas de abordagem do assunto e fala sobre a problematização durante o período eleitoral.

 

Educação sexual e religião

Jorge Bergoglio foi pontificado em 2013 e adotou o nome de Francisco, em referência ao santo católico. Foto: Pixabay.

Em entrevista coletiva no início do ano, 28 de janeiro, durante a Jornada Mundial da Juventude no Panamá, o Papa Francisco declarou ser a favor da educação sexual. Na conversa com os mais de setenta jornalistas, ele falou sobre a importância do tema, e quando questionado sobre a gravidez precoce em alguns países do continente americano e a falta dessa disciplina nos colégios do Panamá, afirmou: “Creio que nas escolas é preciso oferecer educação sexual. Sexo é um dom de Deus, não é um monstro. É o dom de Deus para amar, e se alguém o usa para ganhar dinheiro ou explorar o outro é um problema diferente. Precisamos oferecer uma educação sexual objetiva, como é, sem colonização ideológica”.

No caminho de volta, o pontífice disse ainda que é necessário escolher bem os professores que trabalharão o assunto e que o ideal seria o debate começar em casa, entre pais e filhos.

A educação sexual é um tema complexo, que aborda diferentes e importantes questões relacionadas a educação, saúde e sociedade. Como qualquer outro conhecimento, entender sobre o corpo humano e suas reações biológicas ajuda na orientação de uma vida saudável e responsável, além de proteger contra abusos e riscos de doenças e gravidez precoce. Sexo faz parte do ser humano, e nada melhor do que aprender sobre o assunto de modo didático e claro.

 

Créditos:

Imagem em destaque: Na biblioteca da Universidade Cruzeiro do Sul, há diversos livros sobre essa temática. 

Planejamento de Mídia: Angela Barbosa Souza

Revisão: Isabel C. Araujo Souza

Social Media: Karine Silva Souza

Fotografia/edição/pauta: Kleber Augusto

Repórter/redatora: Renata Fabiane de Lacerda Pinto

14 comentários em “Além da reprodução humana: entenda a importância da educação sexual nas escolas

  • março 29, 2019 em 6:40 pm
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    Caramba!Gostei muito do artigo do seu site. Estarei acompanhando sempre.Grata!!!

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    • março 29, 2019 em 8:56 pm
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      Agradecemos o seu comentário! 😉

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  • março 29, 2019 em 8:31 pm
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    Eu gostei muito, parabéns!

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    • março 29, 2019 em 8:57 pm
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      Agradecemos o seu comentário! 😉

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  • março 29, 2019 em 8:55 pm
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    Adorei o artigo, uso de áudios muito bem colocado e imagens maravilhosas e informativas de maneira sutil que mostram q além do sexo tem que haver a proteção.

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    • março 29, 2019 em 8:57 pm
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      Agradecemos o seu comentário! 😉

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  • março 29, 2019 em 10:14 pm
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    Nossa. Muito bem feito. Adorei ler. Muito bom mesmo. Continuem assim

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    • março 29, 2019 em 10:20 pm
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      Agradecemos o seu comentário! 😉

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  • março 29, 2019 em 10:15 pm
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    Tá muito bem explicado e bem feito parabéns.

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    • março 29, 2019 em 10:20 pm
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      Agradecemos o seu comentário! 😉

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  • março 29, 2019 em 10:17 pm
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    Gostei dos áudios. Vocês são muito bons. Tá incrível.

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    • março 29, 2019 em 10:22 pm
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      Agradecemos o seu comentário! 😉

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  • março 30, 2019 em 11:28 pm
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    Tema muito bem abordado com muitos exemplos e explicações, parabéns!

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