Altos índices de gravidez na adolescência mostram um Brasil conservador

Com resultados comprovados em países desenvolvidos, a educação sexual ainda é tabu nas salas de aula brasileiras

 

Por Bruna Santos

Com altos níveis de casos de gravidez na adolescência e de doenças sexualmente transmissíveis, o Brasil se vê longe de conquistar um sistema educacional que atenda às necessidades dos jovens por conhecimento e orientação. Poucos recebem preparação adequada para iniciar sua vida sexual, o que os torna vulneráveis à coerção, abusos, gravidez indesejada e DSTs, incluindo HIV.

O debate em torno de como educar os jovens sobre sexualidade tem sido comprometido pela influência dos setores religiosos e pela atual popularidade de pensamentos conservadores e de seus representantes políticos. Um exemplo claro disso é a proposta para a área de educação da candidatura do deputado Jair Bolsonaro à presidência nas eleições de 2018. Ele propõe a mudança da linha pedagógica nas escolas, a militarização do ensino público e a indicação de um general para gerir o Ministério da Educação.  Bolsonaro já havia feito acusações contra o MEC sobre a suposta distribuição em escolas do livro “Aparelho Sexual e Cia – Um guia inusitado para crianças descoladas”, da autora francesa Hélène Bruller, que trata de puberdade, sexo, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e métodos contraceptivos. Segundo o parlamentar, o livro seria uma cartilha do governo que incentiva crianças a fazerem sexo e “abre portas” para a pedofilia. Porém, o MEC nunca distribuiu ou recomendou a leitura de tal livro, que faz parte do catálogo da Companhia das Letras.

Pensamentos como os do deputado estão em crescente visibilidade, o que torna a aprovação de projetos para a área de educação sexual cada vez mais escassa. Os professores se sentem despreparados e com receio para atuar em meio a esses conflitos ideológicos, ainda mais quando não são amparados por uma legislação que inclua o tema no currículo escolar.

Sexualidade e natureza humana  

Em contraponto, partindo da necessidade de discussão, surgem órgãos como o Instituto Kaplan que por meio de educadores qualificados, propaga conhecimentos sobre responsabilidade sexual em prol de melhor qualidade de vida à população. Para Maria Helena Vilela, educadora sexual e diretora da instituição, a sexualidade é inerente ao ser humano e já nascemos com ela, portanto a educação deve ser iniciada na infância pela família, mas com acompanhamento da escola, que vai preparar a criança e o adolescente para lidar com as diferentes fases de seu desenvolvimento físico e mental. “Negar a sexualidade é a mesma coisa que negar sua própria natureza humana, precisamos aprender a lidar com ela”, afirma Helena.

Ao contrário do que muitos propagam, a matéria não trata do ensino de práticas sexuais, mas sim da orientação pessoal, desmistificação de tabus, aconselhamento, prevenção, questões de gênero e o incentivo ao respeito. Sem acesso à educação, a fonte de conhecimento dos jovens sobre sexo acaba resumida a conteúdos pornográficos que deturpam as relações e estereotipam a função da mulher, propagando o machismo e alterando a forma como interagem sexual e afetivamente.

De acordo com Helena Vilela, estamos vivendo um momento de retrocesso, diante de vídeos na internet que incitam posicionamentos extremistas e a posição de alguns representantes políticos colaboram para barrar os avanços, a exemplo da retirada do material de educação de sexualidade e gênero das escolas, assim como o impedimento da distribuição de cartilhas anti-homofobia.

Dados mundiais

No início do ano, em relatório que analisou a gravidez na adolescência no mundo, a Organização Mundial de Saúde (OMS), relata que todos os anos 21 milhões de garotas, entre 15 e 19 anos, e outros 2 milhões com idade abaixo de 15, se tornam mães precocemente. No Brasil, os índices de gravidez estão acima da média da América Latina, pois em torno de 68,4 a cada 1000 adolescentes tem pelo menos um filho antes dos 20 e estima-se que 5% a 33% abandonam os estudos por causa da gestação. Países como França, Itália e Portugal implantaram o cuidado com a sexualidade como disciplina e os resultados são positivos, apenas cerca de 8 a cada 1000 meninas engravidam.


Fonte: The World Bank

Os perigos à mãe e ao bebê são muito maiores nesses casos, pois as jovens são mais propensas a terem complicações durante a gravidez, entre infecções e má formação da criança. Em torno de 3,9 milhões de meninas sofrem abortos inseguros e colocam suas vidas em risco. São danos emocionais, profissionais, físicos e econômicos que podem ser reparados com a instrução de homens e mulheres ao longo de seu desenvolvimento.

Também é na adolescência que se identifica maior número de incidência de DSTs, que atingem 25% de jovens com menos de 25 anos. Como apenas casos de HIV e de sífilis em gestantes e bebês são notificados obrigatoriamente ao Ministério da Saúde, é difícil ter uma estimativa mais precisa, mas é possível ter noção a partir dos dados da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, que divulgou, com análise dos últimos seis anos, um aumento de 603% nos casos de infecção de sífilis no estado.

Foi realizado, em 2010, um estudo que mostrou que 20% de meninas com idades entre 14 e 19 anos apresentavam frequentemente alguma DST. Em 80% dos casos, tratava-se de candida albicans e, em 40%, de trichomonas vaginallis.

Uma pesquisa do Ministério da Saúde apontou que seis a cada dez jovens não usam preservativo apesar de saberem que é o melhor meio contraceptivo e de prevenção do HIV. Esse é o principal desafio dos educadores: trabalhar o sentimento de autopreservação no aluno, para que os riscos do sexo desprotegido não estejam somente em matérias acadêmicas, mas também na consciência individual. A educação sexual tem relação com cidadania, planejamento e liberdade, não podendo ser limitada ao ensino de questões biológicas, tornando a capacitação de professores para essa etapa da vida do jovem uma meta a ser alcançada.

 

Conheça mais sobre o instituto:

http://www.kaplan.org.br/

Mais informações sobre o relatório:

http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs364/en/

Mais informações sobre o estudo:

http://www7.bahiana.edu.br/jspui/bitstream/bahiana/30/1/M%C3%A1rcia%20Sacramento%20Cunha%20Machado.pdf


Alice Veloso: Revisão; Amanda Eduarda: Edição; Bruna Santos: Reportação/Redação; Deiviani Bernardo: Pauta; Gean Carlo Seno: Fotografia.

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