Inclusão social: as barreiras diárias sofridas ao longo dos primeiros anos escolares

A cada ano podemos ver uma presença mais constante de crianças especiais inclusas no âmbito escolar. Os primeiros anos escolares são os mais difíceis. Adaptação, cuidado e principalmente o entendimento são primordiais para o desenvolvimento adequado da criança.

 

Por Adriana Simioni

 

Por tempos, a discussão sobre inclusão das crianças nas redes de ensino regular em escola pública e/ou privada não era pautada, porém, por pressão de movimentos sociais, levantou-se o debate que tem apresentado bons resultados através da Lei Brasileira de Inclusão nº 13.146/2015. Hoje, há uma cobrança da sociedade para que esses alunos sejam inseridos no âmbito escolar, adaptando suas experiências a novas realidades, assim agregando às outras crianças a diversidade de convivência.

Para Fabiana Amorim (43) professora há 23 anos, que hoje leciona em escola de 1º à 5º ano, da rede pública da zona leste, há várias dificuldades encontradas no âmbito escolar. Ela destaca principalmente a falta de laudo médico para acompanhamento adequado da criança, além da não aceitação dos familiares referentes a possíveis diagnósticos. É comum que a rede de ensino identifique atitudes diferentes de uma criança, como por exemplo irritabilidade com barulho, o que caracteriza uma criança com autismo. Os pais demoram a acreditar e procurar apoio médico para possuir um diagnóstico correto e adequado a cada deficiência.

A professora diz que o acompanhamento familiar é primordial, pois os pais que não aceitam as necessidades especiais do filho acabam dificultando a alfabetização/educação dos mesmos. Cada criança tem sua particularidade para alfabetização e habitualmente nas crianças especiais esse aprendizado é de forma lúdica. Porém, sempre renovado, pois as crianças apresentam um nível de tédio e irritabilidade maior. Para Fabiana, o termo criança especial não é o usado em sua sala de aula. Ela tenta expor aos outros alunos que todas as crianças são especiais, porém há algumas que necessitam de cuidados específicos. Quando o assunto são as melhorias que deveriam existir para uma inclusão mais correta, na opinião da educadora uma sala de aula com inclusão social deveria ter uma quantidade de alunos reduzida para que as crianças deficientes não tenham irritabilidade constante. Também seria desejável uma outra pedagoga para dar atenção especial às crianças deficientes de acordo com cada necessidade.

Entre todas as dificuldades do dia a dia, a professora nos conta a positiva posição dos outros alunos, referente ao colega deficiente normalmente os protegem e/ou avisam quando o colega quer ir ao banheiro ou afins, se sentem responsável.

O que pôde ser bem observado é a questão de âmbito familiar e educacional, pois o apoio e a atenção são fundamentais. A fase da alfabetização de uma criança já é por si só complicada, e isso se agrava quando a criança necessita de cuidados especiais. Nesses casos, crianças especiais fazem acompanhamentos médicos, em escolas contraturno ou consultórios com psicopedagoga.

Como explica a pedagoga Camila Bertolucci (24), que exerceu a função em consultório e escola particular na zona leste por cinco anos, juntamente com uma psicopedagoga, na época em que esteve no consultório e na escola privada, encontrou dificuldades nas salas de aula da escola pública. Os familiares não aceitam por completo as crianças deficientes. As barreiras a serem quebradas são os próprios preconceitos já estabelecidos em algumas famílias. Um dos pontos citados foi a didática oferecida, também de forma lúdica, como pintura, monta-monta e música. Métodos engessados, como apostilas, não funcionam.

No consultório, a didática está relacionada à motricidade, trabalhando com a visão de mundo e coisas simples, como a forma correta de segurar um lápis. Respeitando o tempo e ajudando a desenvolver seu intelecto de forma gradual já que se trata de inclusão. Alguns dos materiais são livros fantásticos, modelagem, letras e números grandes a ponto de ser palpável e pegável pelos alunos, realizando uma aula/brincadeira, com intuito dos alunos quererem estar lá, sentir-se acolhidos, cuidados e respeitados.

Camila faz questão de exemplificar melhor a questão no âmbito da alfabetização, quais dificuldades os alunos adquirem no aprendizado quando os familiares tentam “tapar o sol com a peneira”. O problema está correlacionado à falta do acompanhamento médico, fonoaudiólogo, psicológico e com psicopedagogo. A criança apresenta déficit e a falta do acompanhamento especializado faz com que tenham menor desempenho positivo como a da fala, do comportamento, motoro e de realizações pessoais. “Com os trabalhos realizados, observei que as crianças pertencentes a famílias que fizeram acompanhamento correto desde cedo, obtiveram avanços esplêndidos e desenvolvimentos rápidos. E costumo dizer que tudo é uma questão de acompanhamento específico, para que a inclusão seja feita com êxito”, afirma a pedagoga.

Entretanto, as situações citadas não são somente características da zona leste de São Paulo. Para justificar isso conversamos com Dirceia Oliveira (32), professora há 13 anos e que hoje leciona em escola particular da zona Sul de São Paulo. Ela esclarece que há alguns desafios em atuar na educação inclusiva, como salas cheias, aulas corridas, sem tempo hábil para identificar o problema e pensar em resolução de cada aluno em particular, além de condições nem sempre favoráveis. Sobre o questionamento de apoio familiar a história se repete e Dirceia relata: “A presença e acompanhamento da família, na vida de qualquer criança, é muito importante, o papel é de oferecer-lhe um lugar onde possam desenvolver-se com segurança. Este esforço torna-se mais difícil para as famílias dos deficientes. Quando isto acontece, se exige de cada membro familiar uma redefinição de papéis, cobrando-se deles mudanças de atitudes e novos estilos de vida. Às vezes nem toda família faz o acompanhamento da criança ou não aceita que ela seja especial, o que é uma pena.”

 

Alunos da escola particular. Foto: Larissa Mendes

 

Dirceia diz que houve dificuldades em aplicar atividades onde todos participassem. Ela informa também que, ao seu ver, o professor de educação inclusiva deve agir como qualquer outro professor. Fazendo com que a criança especial se sinta inserida na sociedade mesmo que pareça impossível. Seu método de inclusão está além de sala. Ela revela que permite sistema alternativo de comunicação e incentiva a participação dos alunos nas atividades da escola, solicitação por materiais/equipamentos específicos.

 

Escola Particular da zona sul de SP – Foto: Larissa Mendes

 

Como contraponto, conversamos com Mônica Moreira (19), contando sobre o irmão Arthur (25), portador de necessidades especiais, mais especificamente Síndrome de Down. Ela explica que o irmão é de 1993 e na época não possuía políticas públicas como forma de inclusão. A família optou pelo ensino particular nos primeiros anos e por falta de assistência e respeito, a família o transferiu para uma escola pública, havendo um grau significativo de desenvolvimento onde estudou até a 8ª série. Na época, a Mônica tinha entre 6 e 7 anos e relata lembrar que como forma de inclusão, a escola ofereceu aulas de reforço básico. Já no ensino médio não houve avanço e chegou a regredir, pois estudava à noite e o cuidado era quase nulo, o que lhe foi oferecido era cópia de textos de letra de forma, pois ele não reconhecia letra cursiva, além de contas matemáticas que já havia aprendido.

A família explica que Arthur nunca se queixou, porém não sabem como ele se sentia. Sempre foi querido e as pessoas gostavam de estar em sua presença. No sistema de inclusão o Arthur aprendeu a ler e realizar contas muito bem, reconhecimento de letra, sabendo escrever mesmo com suas limitações.
Quando questionada sobre acompanhamento com médico especialista, Mônica relata que após a mãe ter conhecimento da síndrome, o Arthur iniciou tratamento no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo – IAMSPE, através de convênio, sendo encaminhado posteriormente para a AACD, chegou a realizar atividades físicas como natação pela ADD. Atualmente trabalha, tem ensino médio concluído, utiliza transporte público, enfim possui uma vida comum como de qualquer outro cidadão de São Paulo.

Através da construção do conhecimento sobre as necessidades das crianças especiais, a nível mundial, a discussão sobre inclusão social está cada vez mais presente. Entre os assuntos, está o conflito vivido por deficiente e família, por motivo da dificuldade de aceitação da doença por parte das pessoas mais próximas.

Por anos, o assunto foi considerado um tabu pela sociedade. Como exemplo histórico, na Antiguidade os nascidos com deficiência eram abandonados à própria sorte. Na Idade Média, eram considerados impuros e as doenças vistas como castigo divino, como retrata a animação infantil da Disney, de 1996, O Corcunda de Notre Dame, inspirado no livro do escritor francês Victor Hugo, de 1831. Mas foi na Fase Moderna, após o conhecimento e uso da Ciência, que foram realizadas descobertas de como a mente humana funciona. Com isso formaram estratégias para educar pessoas com deficiência.

Entre 1540 e 1580, na Espanha já se falava sobre deficiência auditiva, mas só em 1854 o Brasil entrou na discussão, ou seja, a mando do Imperador D. Pedro II e José Alvares de Azevedo, criou-se o Imperial Instituto dos meninos-cegos no Rio de Janeiro. Após três anos, foi criado o Imperial Instituto e Surdos-Mudos por Ernesto Huet.

 


 

 

 

Para maior entendimento foram separados alguns filmes sobre assunto tratado:

Intocáveis (2012) Meu nome é Radio (2003)
Colegas (2012) Hoje eu quero voltar sozinho (2014)
Cordas (2014) Sempre amigos (1998)
Uma lição de amor (2001) Amy uma vida pelas crianças (1981)
A pessoa é para o que nasce (2002) – Documentário Brasileiro Janela da Alma (2001) – Documentário Francês

 

Adriana Simioni – Pauteira e Repórter/Redatora

Larissa Mendes – Redes Sociais, Fotografa e Editor

Vinicius Araújo – Revisor e Planejamento Multimidia

Quézia Alves

3 comentários em “Inclusão social: as barreiras diárias sofridas ao longo dos primeiros anos escolares

  • abril 12, 2019 em 11:21 am
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    Parabéns pelo trabalho pessoal!!

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  • abril 17, 2019 em 9:57 am
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    Uau 😮 parabéns 👏🏻👏🏻👏🏻

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