A pressão estética na contemporaneidade e a gordofobia

A gordofobia e a pressão estética são dois problemas da sociedade atual. Aos poucos vêm entrando em pauta, mas ainda assim são pouco debatidos.

 

A pressão estética juntamente com a gordofobia tem impacto direto na vida das pessoas. Um estudo realizado em 2017 pela Universidade da Pensilvânia aponta que o preconceito sofrido pelas pessoas gordas é mais prejudicial à saúde do que a obesidade em si. Depressão e distúrbios alimentares, tais como bulimia, anorexia e compulsão alimentar, são reflexos da gordofobia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a depressão afeta 322 milhões de pessoas no mundo. Entre 2005 e 2015, essa estimativa aumentou 18,4%. De acordo com o relatório, no Brasil a doença atinge 5,8% da população, aproximadamente 11,5 milhões de brasileiros. Em 2015, 788 mil pessoas cometeram suicídio, representando 1,5% de todas as mortes no mundo. O suicídio foi a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

A adolescente Dielly Santos, de 17 anos, se enforcou no banheiro de sua casa, no último dia 16. Segundo a família, a menina sofria frequente bullying na escola em que estudava, em Icoaraci, no Pará. A tia de Dielly relatou que ela era chamada de “lixo” e “porca imunda” pelos colegas. Mesmo após sua morte, Dielly continuou sofrendo repressão pelo seu corpo. No post sobre sua morte, havia comentários como, “agora finalmente conseguirá emagrecer, parabéns, venceu na vida” e “se fizer adubo dá para sustentar o Mato Grosso e o Paraná por 5 anos”.

Casos de bullying como o de Dielly são mais frequentes do que se imagina. Uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), analisou os relatos de bullying no âmbito escolar. Foram ouvidos 109.104 estudantes da rede pública e privada, de todos os estados brasileiros, em 2009 e 2012. O levantamento apontou que 18,6% do bullying praticado estava ligado à aparência do corpo, seguido de 16,2% relacionado à aparência do rosto.

O cenário atual da representatividade

Com a popularização de conteúdos para a internet, surgiram blogs e canais no YouTube relacionados ao debate sobre a aceitação do corpo e ativismo contra a gordofobia, tais como Bernardo FalaAlexandrismosTá Querida. A youtuber Alexandra Gurgel, criadora do canal Alexandrismos, anunciou no último dia 21 o lançamento do seu primeiro livro. Com o apoio do Grupo Editorial Record, “Pare de se odiar” será lançado ainda este ano.

No final do ano passado, Alexandra foi alvo de um tweet gordofóbico do comediante Danilo Gentili. Em sua conta no Twitter, Danilo publicou uma foto da Youtuber com a legenda “Eu vou falar uma coisa… eu sei que é difícil de acreditar… mas mano… eu juro… acabei de jantar aqui… e juro… é difícil acreditar mas… eu comi mais que essa mina…”

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A foto publicada era de uma reportagem da BBC Brasil sobre gordofobia, em que a youtuber tinha participado. Alexandra respondeu o tweet em um vídeo que viralizou e criou a #GordofobiaNãoÉPiada, que na ocasião foi o assunto mais comentado do Trending Topics Mundial. No Instagram, a hashtag é usada para compartilhar relatos de aceitação e amor próprio.

Com o passar dos anos, a representatividade de pessoas fora do padrão vem aumentando, mas está longe de ser comum. O filme Gostosas, Lindas & Sexies veio para quebrar os estereótipos em torno das mulheres gordas. O enredo é focado em quatro amigas inseparáveis e empoderadas, que enfrentam variadas aventuras, tanto profissionais quanto amorosas. O destaque no filme é a normalidade na vida das amigas, que apesar de estarem “acima do peso ideal” não tratam isso como uma questão de vida.

Além das telas, o surgimento de perfis em redes sociais que tratam de aceitação estética vem aumentando. “Aos 16 anos, após ser alvo de muitas risadas e gordofobia, quis me encaixar na sociedade e percebi que não cabia nela.” A fala é da estudante e desenhista Maria Calvano, de 17 anos. Maria é a idealizadora do Projeto Mulheres Reais. Através do perfil no Instagram, a artista descreve por meio de desenhos situações que mulheres gordas e consideradas “fora do padrão” sofrem.

@projetomulheresreais

“Sempre gostei de desenhar, mas sempre desenhei corpos extremamente magros, pois achava que era mais bonito. Um dia desenhei uma mulher gorda e vi tanta beleza naquilo. E percebi que há beleza em todos os tipos de corpos, não apenas em um. Criei o projeto para compartilhar esses desenhos e comecei a escrever textos sobre aquilo que estava guardando dentro de mim”, nos conta a desenhista. Todas as postagens do perfil vêm acompanhadas de um texto reflexivo sobre a autoimagem.

@projetomulheresreais

Para a estudante, o cenário de representatividade está longe de ser o dos sonhos. “Precisamos de mais representatividade. A gordofobia e a pressão estética matam silenciosamente. E matar não é só tirar a vida, mas sim deixar de viver por causa do próprio corpo. Não precisamos sacrificar nossa saúde mental em busca de um corpo dentro dos padrões. Vamos viver e nos amar do jeitinho que somos”, finaliza Maria.

O surgimento de uma nova filosofia

Fundado em 1996 por Connie Sobzack e Elizabeth Scott, o movimento The Body Positive, na tradução literal “O corpo positivo”, tem como ideal melhorar a autoimagem de jovens e adultos. Em entrevista ao Rebellious Magazine For Women, Connie diz que lidou em sua adolescência com transtornos alimentares e queria evitar que outras pessoas passassem pelas mesmas experiências que ela. Desde então o movimento ganhou popularidade e diversos adeptos.

 

Créditos:

Pauteira – Marina Gonçalves

Repórter – Carolina Mangieri

Planejamento Multimídia – Larissa Galdino

Fotógrafo – Roberto Araújo 

Editor/Revisor – Rodrigo Alves

 

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