Memes: profissão, vício e paixão

Por Marcus Vinicius Kray

 Será que estamos vivendo ou apenas compartilhando memes?

No Brasil, os memes ganharam força por volta de 2008 e, desde então, difundiram-se por toda a internet. A popularização dos smarthphones e a inclusão crescente de usuários na internet favoreceu muito o processo. No início, apenas algumas páginas na internet se dedicavam a postar esse tipo de conteúdo, muitas vezes influenciadas por plataformas estrangeiras como o 9GAG ou 4chan. Atualmente, existem inúmeros sites e páginas em redes sociais como Facebook dedicadas a criar seu próprio conteúdo “memístico”.

Seja um gif de um trecho de filme que aparece na timeline do Facebook, uma imagem icônica com uma legenda controversa que lhe enviam via WhatsApp, ou até mesmo um vídeo despretensioso que viraliza no YouTube, uma coisa é certa: os memes dominam não só as redes sociais, mas também todo o mundo.

 

A origem dos memes

Ironicamente , o termo “meme” surgiu antes da internet. A nomenclatura vem do livro “O Gene Egoísta” (1976) , de Richard Dawkins. No livro, o autor analisa a memória, a informação e a propagação de ideias, origem da palavra “mimesis”, que em grego significa imitação. Segundo esta definição, meme designa algo que pode culturalmente auto propagar-se, ou seja, praticamente tudo que possa ser aprendido e facilmente transmitido, como ideias, sons, valores éticos ou piadas.  Atualmente esta área de estudos denomina-se memética.

Ainda que relacionada à sua origem acadêmica, a palavra meme usada casualmente no dia a dia se refere diretamente a uma piada, em formato de frase, imagem, gif ou vídeo, que se propaga de forma rápida e massiva pela internet.

Não só como forma de entretenimento, os memes também se mostram eficientes táticas publicitárias. Um dos exemplos mais antigos é o do longa “Serpentes a Bordo” (2006), com Samuel L. Jackson, usado na campanha de lançamento do filme. Atualmente, diversas empresas adotaram a estratégia, incluindo memes em suas campanhas ou famosos que caíram no gosto popular, como a Gretchen e até mesmo a Palmirinha. Entre tais peças publicitárias, encontra-se o comercial da “Brastemp“, de 2017. (https://www.youtube.com/watch?v=eND-7XFbeD0)

Outra característica interessante dos memes é a sua capacidade de se transformar em uma nova piada sem perder a essência da anterior. Como legítima forma de expressão cultural da era digital, os memes de internet já causaram repercussão internacional.

 

A Primeira Guerra Memeal

Em 2016, uma batalha internacional de memes de usuários das redes sociais, predominantemente no Twitter, entre Brasil e Portugal, eclodiu na internet. A Primeira Guerra Memeal, como foi denominada, surgiu por conta de um meme  de 2015, composto por uma frase no estilo “in brazilian portuguese we say” (em português brasileiro dizemos), em que se substitui uma expressão estrangeira por uma propriamente brasileira.  Isso provocou uma produção massiva de memes por usuários de ambos os países e, em volume de memes, o Brasil ganhou disparado.

A disputa memista levou as páginas oficiais da Netflix do Brasil e de Portugal a se pronunciarem. Após alguns dias de batalha cibernética, foi decretada a vitória do Brasil, comprovando que o brasileiro não só adora como sabe muito bem fazer um meme.

 

Memezeiros

Versáteis, os memes também são utilizados como forma de expressão parecida com os emojis, uma forma de comunicação casual e extremamente divertida. Não é à toa que tomaram conta da internet, é praticamente impossível não trombar com eles no dia a dia. Por essa característica irresistível, torna-se muito tentador passar horas interagindo nas redes sociais. A indústria dos memes não para, a cada momento surge algo novo na internet. Dessa forma, o único jeito de manter seus memes em dia é conectar-se constantemente.

Os memes são apontados frequentemente como uma das razões pela qual diversos usuários,  principalmente jovens, passam grande tempo na internet.  Vale ressaltar que o uso excessivo das redes pode ser negativo.  ” Eventualmente, deixo de realizar tarefas escolares para me dedicar à cultura dos memes”, assume a internauta Thais Barbosa. Portanto, deve-se tomar cuidado com a distração excessiva para não perder tempo que seria destinado a tarefas importantes. Algumas vezes, as consequências podem ser avassaladoras. “Participo de muitos grupos de memes, fico interagindo direto. Uma vez, me distraí enquanto fazia o trabalho da faculdade, do nada vi que estava em cima da hora e fiz tudo `cagado´ ”,  conta o usuário das redes André Eloy.

Como tudo na vida, há de haver moderação, afinal de contas não podemos negar: os memes são realmente viciantes.

Pronto, agora descanse em paz…
Profissão Meme: criadores de conteúdo humorístico

A página Site dos Menes, com cerca de 1,2 milhões de curtidas, publica diversos memes diariamente. Ela também conta com um canal no YouTube, podcasts semanais, uma loja virtual de camisetas e um grupo no Facebook onde os usuários podem enviar suas criações. Bolívar Escobar, um dos membros da página, é ilustrador e antes de produzir conteúdo para o site já havia criado as páginas Vossa Excelência, Jojoca (facebook.com/jojoquinhas/) e Dias Melhores Virão (facebook.com/viraodiasmelhores/). Além disso, um dos projetos de que mais gosta reúne uma coleção de sacos de padaria (http://sacosdepao.tumblr.com/).

AUN – Como começou sua produção no Site dos Menes?

Bolívar Escobar (SdM) – O site surgiu em 2013, como manifestação dos conteúdos que circulavam em um grupo de e-mails de amigos que gostavam de fazer muitas montagens e escrever bobagens na internet. Inicialmente, era um Tumblr, e depois criamos a página do Facebook. Eu fui convidado para participar do site logo no início e já entrei com contribuições de todos os tipos. Na época, considerávamos “mene” qualquer coisa, não necessariamente algo que fosse uma piada ou fizesse sentido.

AUN – Qual a diferença entre meme e mene?

Bolívar (SdM) – O Site dos Menes surgiu por causa da nossa rabugice. Foi uma época na qual os memes estavam muito populares e eram replicados à exaustão, então nossa ideia foi criar uma página que, em vez de postar memes já conhecidos, criaria imagens sem graça que seriam o exato oposto, ou seja, mensagens sem nenhum significado que jamais seriam compartilhadas ou retuítadas.  Não demorou muito para esse primeiro intuito evoluir para uma gama de piadas visuais, trocadilhos, hipérboles e inversões de lógica, com várias categorias de brincadeiras visuais que se encaixam no que chamamos de mene hoje em dia.

AUN – Como funciona o workflow? Cada membro faz todo o processo ou existe alguma espécie de segmentação ou divisão das tarefas da página?

Bolívar (SdM) – Eu gosto de dividir a história do site em dois momentos: antes e depois da criação do grupo fechado. Antes, o esquema era no estilo “armário bagunçado”. Éramos em mais ou menos umas 12 pessoas, das quais apenas três, eu entre elas, administrávamos a página ativamente, tentando pelo menos postar alguma coisa toda semana, enquanto os outros publicavam esporadicamente. Nunca houve uma preocupação em manter a página ativa ou em transformá-la em um “negócio”. Éramos apenas um grupo de amigos se divertindo e postando bobagens na internet. Quando criamos o grupo dos nossos leitores, a movimentação aumentou muito. Tivemos que recrutar pessoas novas para ajudar a administrar a página, selecionar menes e banir arruaceiros eventuais.

AUN  –  Como nasce um meme?

Bolívar (SdM) – Um meme nasce da aplicação de uma fórmula. Uma pessoa entra em contato com alguma maneira de expressão, seja imagem, texto ou música, altera o conteúdo ou a forma dessa expressão criando um novo significado. Essa alteração é replicada ou remixada por outros, propagando a ressignificação ou gerando novos sentidos a partir dela.

 

AUN – Como produtores de conteúdo para as redes, a página capta algum tipo de recurso ou monetização?

Bolívar (SdM) – Apesar de não ser nosso objetivo, sempre somos sondados para parcerias com empresas ou outros artistas. O problema é que tanto nós somos muito chatos com o que veiculamos na nossa página quanto o nosso público também é extremamente exigente e adora tirar sarro de tudo (sim, a gente conhece vocês muito bem). Algumas parcerias acabam não indo pra frente e outras se baseiam em ações sem foco no financeiro – já oferecemos aos nossos leitores bolsas de estudos, ingressos de cinema etc.

AUN –  O Site dos Menes gerou algum tipo de mudança no seu cotidiano?

Bolívar (SdM) – Estou engatinhando na comédia stand-up. Muito antes do Site dos Menes,  eu já fazia piadas em redes sociais, blogs e no twitter e, quando meus colegas descobrem que sou um dos criadores do site, ficam bem surpresos. É uma página muito conhecida, principalmente nesse público um pouco mais velho, então sempre surge alguém que me pergunta sobre a página.

E aí, vamo compartilhar? Quais memes você já viu hoje?

 

Editor: Pedro Guilherme; Fotografia/Ilustração: Nayara Jaqueline; Pauteiro: Joanderson Santos Cunha; Revisor: Jean Carlos Gonçalves

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