Não sobrou pedra sobre pedra

Duas semanas após o trágico 1º de maio, a situação no Largo do Paissandu está distante de uma aparente solução.

 

Por Aline Julio

Após quatro mortes confirmadas e, oficialmente, cinco pessoas desaparecidas, as famílias acampadas em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos seguem resistindo em busca de respostas e um lar. As crianças brincam entre as barracas armadas provisoriamente, sob o olhar da Mãe Preta, de Júlio Guerra, sem saber que futuro as espera.

O incêndio no edifício Wilton Paes de Almeida, que já foi uma importante referência de arquitetura na cidade de São Paulo, destruiu o único lar possível para essas famílias, que agora são ainda mais marginalizadas, mesmo sendo vítimas da calamidade e descaso. A grande maioria dos moradores é negra, trabalhava de bicos para pagar o aluguel irregular do prédio, e tenta sobreviver à selva de pedra como pode, em meio à  discrepância social e econômica presente no Centro de São Paulo.

Entre barracas e muita poeira,voluntários de diversos lugares aparecem para ajudar os sobreviventes, vítimas do descaso governamental, em meio ao sofrimento. A paisagem urbana que enchia os olhos de quem visita a Galeria do Rock, agora se parece com um cenário de guerra. Confira na reportagem fotográfica a seguir, realizada em 14 de maio de 2018.

 

Como e onde era o edifício Wilton Paes de Almeida

Comparação da vista da Galeria do Rock entre outubro de 2017 e maio de 2018. Fotos Aline Julio.

 

Mapa da região do Largo do Paissandu, onde três prédios foram danificados no acidente e onde as famílias estão acampadas enquanto aguardam o auxilio moradia da prefeitura. 
(Google Earth/ arte de Aline Julio)
O Edifício Wilton Paes de Almeida, onde viviam cerca de 92 famílias, estava visivelmente sem manutenções. (Google Earth/ arte de Aline Julio)

 

Mesmo com certa distância é possível ver claramente os danos causados nos edifícios vizinhos.
Foto Aline Julio.

 

Em meio ao cenário de destruição, surgiu essa antiga propaganda da cerveja preta Caracú, com data estimada dos anos 1950.
Foto Aline Julio.

 

Poeira e escombros

Detalhes dos escombros de um prédio, atrás do terreno do edifício Wilton Paes.
Foto Aline Julio.

 

A igreja luterana Martin Luther, que teve grande parte de sua estrutura destruída no acidente.
Foto Aline Julio.

 

Após duas semanas, algumas máquinas continuam retirando o entulho do terreno. Os bombeiros já encerraram as buscas e entregaram o local para a prefeitura. Foto Aline Julio.

 

E agora, José?

Pilhas de doações de roupas e calçados ficam protegidas dentro de uma estrutura de bambu, com algumas flores, já murchas, ao redor. Foto Aline Julio.

 

Há uma tenda do governo municipal onde são servidas as refeições, porém o uso dos banheiros químicos pelos desabrigados continua negado. A justificativa seria de que a disponibilidade de banheiros criaria a “comodidade” de quem está acampado no Largo do Paissandu. Foto Aline Julio.

 

Os desabrigados tentam se organizar da melhor forma dentro do espaço reservado, alguns improvisaram tendas nos pontos de ônibus. Em busca de segurança e possíveis doações, moradores de rua dormem ao lado das grades que delimitam o local.
Foto Aline Julio.

 

Há crianças de diversas idades por toda parte, correndo e brincando com o que ganharam de doações, sempre com as mães por perto. Vivem sua infância independente do caos ao redor, e agora sofrem a possibilidade de serem enviadas a abrigos do Conselho Tutelar.  Foto Aline Julio.

 

Ajudar sem olhar a quem

O voluntário e barbeiro Rafael Cardozo, conhecido como Barbeiro Gentil e proprietário da barbearia Dom Gentil, que participa de projetos sociais e do espaço cultural Casa Amarela, junto da maratonista e voluntária Ana Luiza dos Anjos Garcez, conhecida como Animal. Foto Aline Julio.

 

O Barbeiro Gentil foi junto com a sua equipe, da barbearia em Santo André, até o Largo do Paissandu para ajudar adultos e crianças a terem um momento de normalidade e auto-estima em meio à tragédia. Foto Aline Julio.

 

Igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos, onde ao menos 90% de sua irmandade é composta por afrodescendentes. A igreja realiza eventos em datas especiais para celebrar a cultura Africana.
Foto Aline Julio.

 

A igreja Nossa Senhora dos Homens Pretos não está recebendo doações. Para ajudar os desabrigados da ocupação, os seguintes endereços estão recebendo os donativos:

– Igreja Santa Ifigênia (rua Santa Ifigênia, 30)

– Santuário São Francisco (largo São Francisco, s/n)

– Catedral da Sé (praça da Sé, s/n)

– Centro de Acolhida – Viaduto Pedroso, 111

– Cruz Vermelha (avenida Rubem Berta, 860)

Para saber mais sobre o trabalho da Cruz Vermelha e o que pode ser doado, veja a matéria da Código AUN:

Cruz Vermelha arrecada cerca de 15 toneladas em uma semana para desabrigados do Paissandu

 

Redatora e fotógrafa: Aline Julio.
Pauteiro: Carlos Soares.
Editor: Sávio Ferreira.
Revisor: Guilherme Sousa.

 

2 comentários em “Não sobrou pedra sobre pedra

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