Empoderamento da mulher negra na comunicação

Representatividade negra, feminismo e jornalismo periférico ganham espaço na bancada do 2° dia da III Semana de Jornalismo.

 

 Por Karine Gomes

Na manhã da ultima terça-feira (30), professores e alunos da Universidade Cruzeiro do Sul, no Campus Liberdade, puderam prestigiar uma palestra com um tema mais do que relevante. A abordagem sobre “Lugar de Fala:  a mulher negra no jornalismo contemporâneo” trouxe para a bancada mulheres jornalistas independentes com sede em transmitir mensagens. Na plateia, alunos e professores ansiosos para absorver. O evento mediado pela Profa. Dra. Rosângela Paulino, recebeu as jornalistas Rosane Borges, Gabrielly Oliveira e Simone Freire para um bate-papo que deixou todo o público ligado.

Rosane Borges, Gabrielly Oliveira e Simone Freire (da esq. para dir.) foram as convidadas do 2° dia da III Semana de Jornalismo, em debate mediado pela Profa. Rosângela Paulino (à dir.). Foto: Pamela Vieira

Formada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e produtora do coletivo Perifacon, Gabrielly Oliveira, de 23 anos, deu início ao debate abordando o feminismo e o jornalismo periférico. Relatando as dificuldades enfrentadas, a jovem definiu a visão do jornalista de comunidade como dinâmica. ¨Quando observamos um preconceito se formando e conseguimos combater, formulamos argumentos para nós mesmos. E é por isso que é cada vez mais importante que surjam comunicadores que consigam ler criticamente a mídia. Um profissional que apure verdadeiramente os fatos, que se dê ao trabalho de estudar realmente os dados, estudando os conceitos que estão sendo trabalhados. Sempre sabendo o que está sendo dito em cada linha. Isso é importante, pois o jornalista fala com as pessoas. Ele dá voz, isso é uma responsabilidade enorme”, afirmou.

Fundadora do programa social Perifacon, Gabrielly falou que seu projeto nasceu do desejo de gerar transformação à sua volta. “Cada vez mais, a jornalista mulher e negra está tentando pesquisar o mundo, nós temos uma responsabilidade muito grande. Partindo desse  ponto, aceitei construir o Comic Con das favelas.¨ Com cosplay e a representatividade dos quadrinhos, o Perifacon já atraiu a presença de quatro mil pessoas em uma única edição, sendo que um dos temas principais era o poder da mulher. Isso mostrou que cada vez mais as mulheres estão querendo debater assuntos relacionados ao feminismo, antes considerados tabu.” A Perifacon também auxilia na autoestima de quem mora na comunidade, pois usa o entretenimento como um meio importante de auto-afirmação. Por fim, Gabrielly propôs uma reflexão sobre todos esses movimentos, contribuindo para que todos possam falar quando se sentirem incomodados ou quando algo não estiver certo.

Gabrielly Oliveira e Simone Freire. Foto: Camila Alves

“O jornalista periférico consegue visualizar uma série de problemas que quem está em um lugar hegemônico não vê.”  Gabriely Oliveira – Perifacon

A jornalista Rosane Borges, doutora em ciências da comunicação e professora colaboradora do grupo de pesquisa Estética e Vanguarda (ECA-USP) trouxe o empoderamento e a representatividade em sua fala. A jornalista contou suas experiências na época de faculdade. Ativista e engajada nas lutas sociais, sempre lutou por uma universidade melhor. Dentro disso faz uma comparação sobre os estudantes de hoje. Segundo ela, na época a reivindicação partia de um sujeito indistinto universal, que hoje cedeu lugar para uma briga de subjetividade. Ela também  explica que o lugar de fala onde a pessoa se situa geograficamente e socialmente vai definir a forma de ver o mundo. No entanto, não se deve confundir o lugar de fala com representatividade, pois é obrigação e responsabilidade de todos falar sobre o racismo. Além disso, a jornalista fez um adendo e disse que todos nós somos responsáveis pela desigualdade racial no Brasil. “Todo branco, negro, indígena ou qualquer grupo racial é também responsável pelos problemas.” Além da representatividade, Rosane falou sobre a abordagem da pessoa negra no meio televisivo, realçando a força de um padrão estético que a mídia impõe ao negro, asfixiando sua negritude. “No jornalismo sua aparência não pode disputar mais informação que a própria noticia. Coincidentemente, o que disputa a atenção do telespectador é o cabelo do negro. A visibilidade, a beleza e a sobriedade não estão do lado do grupo dos negros. Existe um imaginário racista, esteticamente aplicado na TV, em que o negro está retratado no jornal de forma extrema: ou é um artista que deu certo, ou está na escala do criminoso no jornalismo policial”, afirmou a jornalista.

As convidadas trouxeram depoimentos contundentes. Foto: Pamela Vieira

 Para Simone Freire,  jornalista graduada na Universidade de São Paulo, a presença da mulher negra no jornalismo ainda tem muito a avançar. “Nossos corpos, com cabelo crespo, mais ou menos gordas, grávidas, ou seja lá como for, não podem representar algo exótico ou menos desejável para o padrão estético televiso. Isso precisa mudar”,  complementou.  Três convidadas com personalidades e cheias de atitude. O segundo dia da III Semana de Jornalismo foi finalizado com uma homenagem dos veteranos para as palestrantes e um sorteio entre o público presente.

Palestrante Simone Freire Foto: Camila Alves

Calouros comentam palestra

Em entrevista, alunos do primeiro semestre de jornalismo comentaram suas impressões sobre a palestra e aproveitaram para falar sobre expectativas para o futuro do curso. Ao serem questionados sobre o tema, Mariana de Carvalho e Gustavo Vitalino, ambos de 18 anos, disseram que a representação da mulher no meio comunicacional é de extrema importância para que ocorra uma valorização justa. “O tema é importante, não apenas para a mulher negra, mas para todas, pois o meio jornalístico é uma área bastante dominada por homens. Existe ainda uma certa diferença com a mulher no jornal e o homem no jornal. É importante essa abordagem, inclusive para nós mulheres que queremos ser jornalistas, pois assim criamos uma expectativa melhor para o futuro”, disse Mariana de Carvalho. Já para Gustavo Vitalino, a mulher está superando paradigmas e conquistando o seu espaço. “Há alguns anos o patriarcalismo vem se descaracterizando e se fragmentando. Então, a ascensão da mulher no jornalismo e em papéis de liderança é de suma importância para a sociedade”, concluiu.

 

Mariana de Carvalho  e Gustavo Vitalino são alunos do primeiro semestre de Jornalismo no Campus Liberdade. Foto: Camila Alves

Aproveitando o bate-papo, os alunos puderam falar sobre suas impressões e expectativas com o curso de jornalismo. Para Gustavo, o curso tem uma perspectiva diferente da qual imaginava. “Eu sempre fui um cara muito dinâmico. Achei que a gente fosse começar direto no ato de fazer, na prática. Mas o ato de aprender primeiro está me surpreendendo bastante”, disse.  Para Mariana, “é um curso muito mais informativo do que eu imaginava, as técnicas são muito mais amplas. Os professores também são muito capacitados. Está acima das expectativas, sendo o que eu esperava e mais um pouco.”

A III Semana de Jornalismo se estende até o dia 03/05. Acompanhe pelas nossas redes sociais.

 

Karine Gomes – Texto e Repórter
Marianne Silva – Texto e Repórter
Camila Alves – Fotógrafa
Pamela Vieira – Fotógrafa
Thailize Oliveira – Repórter
Jeniffer Alves – Edição 

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