Avanço das mulheres no jornalismo esportivo

Críticas e discriminações são algumas das dificuldades encontradas por mulheres ao ingressarem no Jornalismo esportivo. Normalmente as reclamações partem de profissionais, entrevistados e telespectadores homens.

 

Por Larissa Mendes

 

Os programas esportivos da TV fechada brasileira possuem uma média de 13% de profissionais mulheres, sendo que quase todas atuam na área de reportagem. Como de costume, as “mesas redondas” são compostas só por homens, porém, as apresentadoras participam de debates ocasionalmente. Geralmente, são chamadas para vender um padrão de beleza e realizar o merchandising, como se estivessem ali apenas para embelezar o cenário. Acabam sendo excluídas e não ouvidas, sofrendo algumas discriminações machistas de profissionais do esporte e de telespectadores.

Segundo Marcella Azevedo (24), estagiária de produção na Fox Sports e repórter na web rádio Viva Esporte, a redação da sede da emissora em São Paulo emprega duas mulheres, enquanto a sede do Rio de Janeiro conta com outras repórteres. Ela conta que atualmente está “menos difícil” do que antigamente, pois acredita que as mulheres estão conseguindo “ter um lugar ao sol”, mas ainda sim enfrentam algumas dificuldades. A maior delas é lidar com torcedores, pois quando eles não concordam com sua opinião, iniciam as ofensas. Entre os colegas de trabalho, tudo é bem mais tranquilo.

Relata que muitas vezes participou de coletivas de imprensa e na maioria das vezes não enfrentou grandes problemas. Entre seus trabalhos, já entrevistou os técnicos Cuca, Mancini, Sampaoli e diversos jogadores em zona mista. Apenas uma vez, em uma coletiva com o técnico Luiz Felipe Scolari, Felipão, e o jogador Gustavo Gomez, ocorreu a situação de que ambos tiveram atitudes machistas, ao não responder as perguntas feitas por ela. Posteriormente, todos da imprensa lhe disseram que foi por conta de ser uma mulher entrevistando.

A repórter e produtora afirma que ainda fica muito triste quando vê que é apenas o começo da luta. Gostaria que as mulheres tivessem o mesmo respeito que os homens no meio esportivo. “Afinal, o que diferencia o nosso conhecimento e o deles? Nada!”, questiona Marcella. Porém, ela é otimista quanto às perspectivas futuras, pois os tempos já mudaram muito desde que a primeira mulher entrou no ramo esportivo.

 

Foto Marcella Azevedo: Acervo pessoal

 

Já para a repórter Paula Caroline Oliveira Pimentel (21), que também atua na Fox Sports de São Paulo, o número de mulheres nos esportes vem aumentando. Ela conta que hoje em dia não é mais a única mulher na redação, mas já foi por alguns meses.

Em sua opinião, as mulheres não se sentem incluídas no ambiente de trabalho em alguns momentos. “É como se a mulher olhasse ao redor e não encontrasse outra que fosse semelhante, alguém para trocar experiências ou dúvidas”, explica. Na maioria das vezes, as dúvidas femininas são parecidas e ter outra profissional para orientar faz com que a tarefa seja efetuada com mais segurança. Pontua também que as mulheres sofrem com comentários maldosos, com pressão psicológica e assédios, normalmente por causa da beleza, tudo vira motivo para serem julgadas. Conta, ainda, que muitas vezes até abre mão de se arrumar mais para evitar comentários desconfortáveis, mas seguir os padrões de beleza é quase que um pré-requisito, caso queiram se manter no meio.

A jornalista sente que nem sempre suas informações recebem a importância que merecem. “Há sempre uma certa desconfiança e alguns entrevistados também se sentem livres para responder de forma ríspida.”

Embora veja o crescimento de mulheres na área esportiva do jornalismo, afirma que ainda há um choque com a tradição exclusiva da atuação masculina no setor. “Afinal, a resistência no meio ainda é grande. Neste momento, precisamos de mais mulheres trabalhando na área. Assim, a nova geração terá modelos para se inspirar.”

 

Foto Paula Caroline: Acervo pessoal

 

Dados mostram machismo presente

Recentemente, Ana Thais Matos (24), comentarista da SporTV e que atua como repórter de rádio em campo, sofreu com declarações machistas do ex-goleiro e atual comentarista esportivo Ronaldo Giovaneli, da Band. O comentarista fez uma declaração em uma de suas redes sociais, dizendo: “Essa profissional aí não tem culpa… culpa tem quem achou que ela entende de futebol!! Renata Fan só tem UMA !!!!”. Ana Thaís Matos foi defendida no Twitter pelo colega de bancada André Rizek. “Machistas não passarão”, escreveu o apresentador.

Renata Fan (41), jornalista esportiva da Band, sofreu muito preconceito no inicio de sua carreira por ser uma mulher atuando no jornalismo esportivo. Em entrevista para a ESPN, ela contou que todos questionavam seu talento e atribuíam o sucesso apenas à sua beleza.

Uma pesquisa do Monitoramento Global de Mídia, que avaliou 18 mil notícias esportivas publicadas em 23 países em 2011, mostrou que apenas 11% desse conteúdo foi escrito por mulheres. Em 2016, a Gênero e Número avaliou colunas esportivas dos dez jornais de maior circulação dos estados brasileiros e dos líderes de audiência e apontou que menos de 10% dessas colunas são assinadas por elas.

A ausência de jornalistas mulheres em cargos de chefia no esporte também prejudica o combate à desigualdade da área. É possível perceber que ainda há poucas mulheres como figuras de referência nas redações ao mesmo tempo em que muitas pautas sobre atletas, modalidades femininas e até mesmo sobre igualdade de gênero acabam sendo barradas pelos editores. Além disso, há casos em que as mulheres são tiradas de pautas consideradas “perigosas” pelos chefes, que em geral são homens, o que prejudica o desenvolvimento profissional dessas jornalistas.

 

 

 

Adriana Simioni – Editora e Planejamento Multimídia

Larissa Mendes – Pauteira Repórter e Redatora

Quézia Alves – Revisora e redes sociais

Vinicius Araújo

 

Um comentário em “Avanço das mulheres no jornalismo esportivo

  • abril 26, 2019 em 6:13 pm
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    Parabéns,muito bem elaborada a Matéria, com todos os pontos importantes , abordados com clareza e competências…

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