Torcidas organizadas: um amor além das arquibancadas

Saiba como funcionam, entenda as polêmicas que envolvem esses grupos e como foi criada a política de torcida única nos clássicos realizados no estado de São Paulo.

 

Por Sabrina Rodrigues

Desde abril de 2016 está em vigor no estado de São Paulo a política de torcida única. Isso ocorre em partidas entre os quatro maiores clubes do estado, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos. Somente a torcida que tem o mando de campo possui o direito de levar sua torcida às arquibancadas.

A restrição foi implantada pela Secretaria de Segurança Pública, após uma série de confrontos entre torcidas organizadas do Corinthians e Palmeiras, especialmente os que aconteceram no dia 3 de abril de 2016, que resultaram em uma pessoa morta e diversos feridos.

 

O início

As torcidas uniformizadas surgiram na década de 40, em São Paulo, com torcedores da elite paulistana. Eles se encontravam nos clubes, promoviam festas e se organizavam para ir ao estádio e ocupar determinadas partes da arquibancada.  Mas, a partir da década de 60, isso mudou e grupos independentes começaram a criar torcidas organizadas sem qualquer vínculo com os clubes. A primeira delas foi a Gaviões da Fiel, do Corinthians, fundada em 1º de julho de 1969, e logo o movimento foi espalhado para o restante do país.

Nos últimos tempos, as organizadas deixaram de ser conhecidas como a força dos times e estão sempre relacionadas às notícias sobre violência, desrespeito e agressão. A Torcida Independente, do São Paulo, existe há 46 anos e afirma que adotou medidas específicas para evitar conflitos. “Procuramos saber antecipadamente as rotas das torcidas de clubes rivais, dia e horário de seus jogos, para assim evitar confrontos nas estações e lugares públicos por onde passaremos. Se necessário, enviamos um ônibus na casa e no bairro de nossos integrantes. Não somos covardes e nem aceitamos covardia: se algum de nossos integrantes cometer um delito, iremos apurar para saber se foi para se defender ou atacar, e se for o caso será expulso.”

Violência no futebol

Por mais que haja essa determinação, a violência em relação ao futebol está longe de acabar e a cada novo ano sempre há a mesma polêmica: se realmente a torcida única é a melhor solução para o fim dos conflitos.

Só no ano de 2017, foram mais de 500 torcedores presos ou afastados dos estádios em São Paulo. Para se manterem firmes diante da afirmação de que a melhor solução é, sim, a torcida única, as autoridades utilizam dados da Polícia Militar, que afirma que os episódios de violência diminuíram, a renda dos clubes mandantes aumentou, e o número de mulheres e crianças nos jogos subiram consideravelmente.

Para Paulo Castilho, promotor do Ministério Público, as torcidas organizadas são instituições falidas e o modelo atual teria de ser extinto. “É inadmissível colocar duas torcidas dentro do mesmo estádio de futebol. Torcida deveria ser extinta.”

Em entrevista para o jornal LANCE!, autoridades dos quatro grandes times da capital expuseram suas opiniões sobre torcida única. Andrés Sanchez, presidente do Corinthians, é a favor da torcida mista, mas é cauteloso e afirma que temos que entender as autoridades. Orlando Rollo, vice-presidente do Santos, também é a favor da torcida mista, vai adiante e afirma que já solicitou uma audiência com Paulo Castilho para tratar o tema. Já Carlos Augusto de Barros e Silva, presidente do São Paulo, discorda dos outros clubes e é a favor da torcida única, afirmando que essa decisão deve ser mantida no momento, pois os casos de violência diminuíram. Maurício Galhote, presidente do Palmeiras, tem duas visões. Como torcedor, é a favor das duas torcidas e, como gestor, entende as autoridades responsáveis pela segurança dos eventos.

Maurício Murad, sociólogo e especialista em torcidas organizadas desde a década de 90 deixa claro seu ponto de vista sobre a polêmica. “Festejar a redução de incidentes é como a paz no cemitério. Se eu retirar as duas torcidas, é provável que não haja conflito nenhum. Os conflitos acontecem longe do estádio de futebol. Violência não é do futebol, é no futebol. Porque no futebol é tudo acentuado, é paixão.”

Para se manter financeiramente diante de tantas polêmicas, as torcidas organizadas contam com seus fiéis torcedores, que pagam um valor mensal como associados. Os clubes ajudam apenas nas organizações de caravanas para jogos distantes e com cotas de ingressos para os jogos. Devido à violência, a relação entre clube e organizadas ficou ainda mais distante e muitas passaram a promover festas, vender roupas nas lojas físicas e no site, organizar caravanas e outras ações para complementar o caixa.

 

 Dragões da Real

Contatamos também a torcida Dragões da Real, ligada ao São Paulo Futebol Clube. “A Dragões da Real sempre foi uma torcida tranquila em relação a brigas, mas já participamos. Hoje, trabalhamos com reuniões com os integrantes para dar o aval de permissões no estádio, há bastante diálogo entre os associados e o Batalhão de Choque, não aceitamos violência de quem torce para o SPFC em qualquer canto do país”, diz Rafael Reigota, diretor da Dragões.

Sobre a política da torcida única, tanto a Dragões quanto a Independente afirmam que o espetáculo perde muito e mesmo assim não evita a violência, pois seria necessário tomar medidas de segurança fora dos estádios. Para Rafael Reigota, a torcida única prova que existe uma deficiência do poder público, ao preferir punir a todos, em vez de punir os que causam a violência.

Outras torcidas, de diferentes estados, como Guarda Popular-Internacional de Porto Alegre, Jovem Chapecó-Chapecoense, de Santa Catarina e Máfia Azul-Cruzeiro, de Minas Gerais, compartilham da ideia de que torcidas únicas em estádios não colaboram para o fim da violência e que essa iniciativa só atrapalha o futebol.

Discriminação da mídia

Segundo esses grupos, a discriminação que sofrem, muitas vezes, é resultado do destaque que a mídia dá às notícias sobre violência. O diretor Rafael Reigota afirma que as brigas dão muita repercussão, mas que os bandeirões e as bexigas não são notícias, pois já fazem parte do futebol. “Não se mostra mais as arquibancadas, mas é só sair uma briga que todas as câmeras se viram para o nosso lado. As organizadas não têm direito de resposta, ninguém abre espaço”, reclama.

Segundo ele, as organizadas fazem ações beneficentes, como doação de alimentos, festas para crianças e doação de sangue. As duas torcidas arrecadaram alimentos, roupas e itens de higiene pessoal para as pessoas que ficaram desabrigadas com o desabamento do prédio no Largo do Paissandu no começo do mês de maio, “mas ninguém ficou sabendo disso, pois os atos de bondade não têm o devido destaque”.

 

Funções:

Repórter: Sabrina Rodrigues

Pauteiro: Thaynara Bernardo

Revisor: Lorraine Barbosa

Editor: Vitória Moura

Fotógrafo: Bianca Teixeira

 

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