Após renúncia de João Doria à prefeitura de São Paulo para se candidatar ao governo do estado, confira avaliação de urbanista sobre a gestão parcial do ex-prefeito

João Doria deixou o cargo para o qual se elegeu com mais de 3 milhões de votos no dia 6 de abril.O urbanista Augusto Aneas fala sobre o legado de seus 460 dias à frente da maior cidade do Brasil.

 Por Lorraine Barbosa

 

Foto: Sabrina Rodrigues.

 

Quando o empresário João Doria se aventurou como prefeito da maior cidade da América do Sul e com o maior PIB do país, é provável que não imaginasse todos os problemas que encontraria. Durante o período de campanha, fez diversas promessas, como privatizar parques, museus e locais de entretenimento, afirmando que dessa forma conseguiria mais investimentos para as áreas de Saúde e Educação. Planos de melhorias e valorização do centro também estavam entre as metas, assim como zerar o déficit das vagas nas creches. O número de vagas até aumentou, todavia, há ainda muitas crianças sem acesso ao benefício. Por outro lado, no curto espaço de tempo em que ocupou a prefeitura, Doria conseguiu colocar em prática algumas questões, como a doação do próprio salário, o não-aumento de parte dos impostos municipais e o aumento da velocidade das marginais.

Em enquete feita pela AUN nas ruas do Centro de São Paulo, cerca de 30 paulistanos deram sua opinião sobre a gestão.

 

Parque Augusta, crise hídrica e ocupação do espaço urbano

Augusto Aneas, arquiteto, urbanista e ativista do movimento Parque Augusta, fala sobre o andamento da conservação do Parque Augusta, as conversas com a prefeitura, a relação com o prefeito João Doria e a candidatura dele para o Governo do Estado.

 

AUN – Qual a relação entre o prefeito João Doria e os movimentos de conservação ambiental,  como o Parque Augusta?
Augusto Aneas – Acredito que o Doria percebeu a potência da pauta do Parque Augusta na cidade de São Paulo, principalmente entre a população do centro. Vejo dois lados, um positivo, por ele ser atrevido o suficiente ao fazer um acordo para tentar resolver esse imbróglio, coisa que seus antecessores não tiveram peito para assumir. Por outro lado, esse acordo é ilegítimo e gera uma desconfiança por conta da relação do prefeito com as construtoras Cyrela e Setin. Talvez ele acredite que teria algum tipo de apoio político em seus planos eleitorais como governador ou até na própria gestão da prefeitura.

AUN – O prefeito prometeu que cumpriria os quatro anos de mandato. Na sua opinião, por que isso não ocorrerá?

AA – Isso não ocorrerá por uma questão de ambição e poder. Eu acho que isso ocorreu quando uma pessoa como ele, inexperiente na vida pública, que caiu de paraquedas na prefeitura da maior cidade no Brasil, percebeu o poder que tinha nas mãos – e o poder é um vício, uma droga. Entendo que ele não cumprirá os quatros anos, pois a motivação não está no interesse público, na coletividade da cidade ou do estado, mas sim na manutenção do poder pessoal, já que, além de político, se trata de um empresário, com alianças corporativas.

 

AUN – Como urbanista, na sua opinião, qual é a área da cidade de São Paulo que  precisa de mais atenção?

AA – Na cidade de São Paulo, particularmente acho que é a  do meio ambiente, porque o desenvolvimento urbano aconteceu de forma completamente mal planejada e nós  chegamos a um limite em que parece impossível garantir espaços como parques, praças, espaços e equipamentos coletivos. Temos, por exemplo, uma aliança com a Rede Novos Parques, com 48 áreas verdes, em situação parecida à do Parque Augusta, que queremos proteger. Os rios urbanos sempre receberam atenção muito precária em São Paulo e, cada vez mais, os estudos mostram o quanto o espaço verde é necessário para a saúde pública da população. Obesidade, problemas respiratórios, depressão, tudo isso já é apontado pela Organização Mundial da Saúde como consequências da falta de áreas verdes e de lazer em São Paulo. Ao mesmo tempo, vivemos uma questão problemática na questão hídrica, com a perspectiva de talvez não conseguir abastecer a cidade. A atual crise na oferta de água está totalmente vinculada à ausência de áreas verdes, ao regime de chuvas, às ilhas de calor urbano, à questão dos rios urbanos poluídos, questões que nunca entram no planejamento da cidade. Além disso, temos as periferias, muitas das áreas da Rede Novos Parques estão nessas regiões, que sofrem com o constante descaso.

 

AUN – Você acredita que, com a saída de João Doria da prefeitura e a mudança no governo no ano que vem, haverá algum avanço para a construção do Parque Augusta?

AA – Difícil dizer, mas Bruno Covas parece uma pessoa com um pouco mais de bom senso, é um pouco menos liberal em termos econômicos e um pouco menos conivente com o mercado imobiliário.

 

AUN – Quando surgiu o movimento Parque Augusta?

AA – Existe uma movimentação pela conservação desse espaço verde há mais de 40 anos, desde que um antigo colégio no local foi demolido e a população começou a proteger a área para evitar que algum prédio ou empreendimento fosse erguido ali. Formalmente, o movimento foi organizado por volta de 2013, quando a propriedade passou do antigo banqueiro Armando Conde para as atuais construtoras Setin e Cyrela.

 

AUN – O empreiteiro Antônio Setin declarou que “ativistas do Parque Augusta são meia dúzia pagas pelo papai.” O que achou dessa declaração?

AA –  Foi uma declaração bem engraçada do Antônio Setin, pois o movimento não traz apenas pessoas da classe média de São Paulo. O movimento também traz várias pessoas de origens distintas, de camadas sociais diferentes, de orientação sexual diversas, enfim tem uma grande variedade nesse movimento. Então, é uma declaração bem depreciativa do Antônio Setin.

AUN – Vocês obtiveram resposta após enviar a carta à Juíza Maria Gabriela Spaolonzi?

AA –  Entregamos a carta pessoalmente em seu gabinete e ela nos recebeu para uma conversa. Eu e mais dois ativistas conversamos com ela sobre as diretrizes do acordo proposto pelo prefeito Doria, algo que nos incomodava bastante. São dois pontos que incomodam: o primeiro são os critérios de valoração da área do Parque Augusta, porque existem diferentes tipos de olhares para avaliar a área e essa é uma briga central do Parque Augusta. Nós queremos um acordo que seja justo, em que o valor do parque seja justo para a cidade. O segundo ponto é que nesse acordo proposto pelo prefeito Doria, ele inclui inúmeras contrapartidas nesse pacote de operações urbanas e essas contrapartidas influenciam vários territórios fora do Parque Augusta, em Pinheiros, Praça Roosevelt, Luz. Quando você olha o pacote do acordo que o prefeito propôs, dá um certo desespero, porque as comunidades que vão ser afetadas não tinham a menor consciência disso. Nesse meio tempo, a gente avisou essas comunidades. Em relação à avaliação do Parque Augusta, surgiu uma primeira avaliação da prefeitura e das construtoras, completamente especulativa, colocando o valor do terreno na casa dos 130 a 140 milhões de reais. Temos que enfrentar agora essa especulação imobiliária para evitar que se faça um negócio injusto para a cidade, para evitar a especulação imobiliária em cima do valor do Parque Augusta.

Pauta: Vitória Gabrielle

Revisão: Bianca Teixeira

Edição: Thaynara Bernardo

Fotografia: Sabrina Rodrigues

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