Aumento dos casos de DSTs abre discussão sobre o tema

Em 2016, a sífilis voltou a ser declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos graves problemas de saúde pública, e de acordo com o último Boletim Epidemiológico de DSTs de 2018, divulgado pelo Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HAIV e das hepatites virais, os casos diagnosticados de Sífilis cresceram cerca de 30%

Por Sheila Pinheiro e Gabriela Stella

(Ilustração: Sérgio Bergocce/SAÚDE é Vital)

Freddie Mercury, Renato Russo, Cazuza. Se para alguns os heróis morreram de overdose, precisamos falar também que muitos dos nossos músicos favoritos sucumbiram por conta de Doenças Sexualmente Transmissíveis, ou as populares DSTs.

No entanto, algo que parece distante, tem alarmado os órgãos de saúde mundiais e nacionais. Só no Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou o equivalente a 2.8 milhões de dólares com procedimento relacionados a DSTs em 2017.

O que poderia ser um assunto apenas para políticas públicas envolve todas as camadas e ações da sociedade. Ao verificarmos que cada vez se fala menos sobre estas doenças e o uso de camisinha, nossa atual sociedade democrática tem tolhido escolhas na abordagem do assunto e consequentemente o aumento dos tabus que giram em torno destas doenças.

 

Visão assistencial

A cultura sexual pré-existente bem como a alta influência da mídia no estímulo sexual são agravantes que inúmeras vezes batem de frente com métodos de educação e prevenção às doenças.

Em tempos de adiantamento da vida sexual dos jovens e adolescentes, se faz necessário o uso de novas articulações de prevenção à saúde, pois trata-se de um grande grupo de indivíduos vulneráveis a doenças como DSTs e HIV.

Em contrapartida, temos meios que avançam contra a marcha lenta do sistema de saúde para conter os surtos e epidemias da DST/HIV. De acordo com o Instituto Federal de Enfermagem (COFEN), os profissionais de enfermagem são maioria na prevenção e educação sexual da parcela vulnerável da sociedade brasileira e mundial. No ímpeto de novas estratégias para sensibilizar um determinado público, com humanização e acolhimento, os profissionais da enfermagem trabalham na orientação e no tratamento transparente e sensível às demandas dos pacientes.

Em entrevista exclusiva para a AUN, a especialista internacional em segurança do paciente, pela Universidade de Lisboa, pós-graduada em Terapia Intensiva e Bacharel em enfermagem, Fabiana Cândido Reis, nos mostra como a visão profissional é ampla e específica quando tratamos de doenças sexualmente transmissíveis. Segundo Fabiana, faz parte da cultura brasileira o fato de que é mais previsível as pessoas acreditarem em um profissional da saúde do que aderirem a um método preventivo e definitivo. Outro parâmetro importante colocado pela enfermeira é que a cultura da prevenção não se instala na população devido à medicina atual ser mais curativa do que preventiva. A visão de que a medicina só atua no tratamento de doenças, estigmatiza ainda mais a ausência de solução de um problema existente, do que o combate a causa dele, colocado por Fabiana como primeiro fator dentre as dificuldades que travam o processo de combate às DSTs.

Os fatores sociais individuais são também uma grande dificuldade, pois é crucial a atuação da enfermagem na melhoria emocional e física de um paciente infectado. “É um grande desafio”, diz Fabiana.

 

Realizamos pesquisa online com cerca de 200 pessoas, de 2 a 10 de abril (2019). Para proteção das informações, o questionário foi realizado de maneira anônima.
Veja alguns dos pontos desta pesquisa no infográfico

Olhar do Governo

Entrevistamos Isabel Cristina dos Santos, enfermeira da rede pública de saúde do Estado de São Paulo que atualmente é coordenadora de Unidade Básica de Saúde (UBS) e já foi responsável técnica de Itapecerica da Serra sobre a equipe de prevenção a DSTs e do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA).

Isabel nos conta que a maior preocupação para a saúde pública são os jovens em início de atividades sexuais e os homens de todas as idades, pois, nestes dois casos o uso da camisinha (agente principal de prevenção contra DSTs) é sempre negligenciado.

O aumento de DSTs infelizmente recai em pessoas mais vulneráveis. Antigamente existia o estigma de que apenas homossexuais e prostitutas tinham estes tipos de doenças, e hoje a maioria dos atendimentos de DSTs começa com jovens que reclamam de algum desconforto.

Todas as doenças precisam de um olhar atento, mas a maior preocupação é pela sífilis congênita, onde a mãe possui a doença e acaba passando para o filho no momento do nascimento. A coordenadora conta que a situação beira o desespero, pois esta além de ser evitável. Se houvesse o apoio da população, tal doença não deveria nem mais existir, mas ao contrário disso, nos últimos seis anos houve aumento de 5.174% dos casos.

É importante sempre reacender o debate, pois enquanto o jovem tem vergonha do assunto, as pessoas mais velhas ignoram a situação. O governo disponibiliza camisinha gratuitamente em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e diversos postos, como terminais e móveis, muito utilizados em épocas de carnaval e outras festividades.

“Fiz palestras em penitenciárias, e o que percebi é que ninguém quer ver as doenças, as pessoas ignoram, ou consideram que  sífilis, gonorreia entre outras, são doenças de pessoas que frequentam prostíbulos ou algo que só existe em ambientes sujos. E, na realidade, você pode pegar DST de qualquer pessoa.”

É importante também informar, que toda a Unidade Básica de Saúde (UBS) tem o dever de ofertar os exames referentes a DSTs, porém devido ao preconceito e diversas crenças da população, é realizado em muitos casos, apenas um questionário sobre os hábitos da população. Isabel afirma que, para ela, não existe um determinado grupo de risco, uma vez que qualquer pessoa que tenha relações sexuais sem camisinha está exposto a diversas implicações infecciosas.

HIV e hepatite também abrem outro parâmetro, pois transfusões de sangue, piercings e tatuagens são situações de perigo se o ambiente não estiver devidamente esterilizado.

 

ABAIXO O TABU – Discutir é preciso

Falar sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis, infelizmente, ainda é o tabu onde todos querem fazer sexo, porém uma pequena parcela realmente pensa nas consequências de uma relação insegura, além do risco de gravidez.

Mesmo em palestras escolares, agentes de saúde informam dificuldade para acessar o interesse dos jovens, uma vez que conceitos religiosos também entram em questão, tornando ainda mais difícil abrir uma roda de conversa.

Já abordamos esse tema aqui em nossa agência, e pontuamos a necessidade de abrir esse debate e não deixar que o medo destas doenças impeça a informação de chegar à população. Doenças como sífilis, gonorreia e inclusive HIV não deveriam mais existir e a mudança da atual realidade está no diálogo entre entidades privadas, governo e a população.

 

Repórter e Fotografia: Sheila Pinheiro

Repórter e Infografia: Gabriela Stella

Revisão: Vitória Karoline

Planejamento de Mídia e Pauta: Giovanna Salvatore

Editora: Giovana Duarte

2 comentários em “Aumento dos casos de DSTs abre discussão sobre o tema

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