Cresce o número de homens com transtornos alimentares

             Na busca para se adequar, jovens colocam suas vidas em risco em nome da magreza

Por Bruna Caroline

Apesar do estereótipo de que os transtornos alimentares ocorrem apenas em mulheres, cerca de uma em cada três pessoas que sofrem de um transtorno alimentar é do sexo masculino. Comportamentos alimentares subclínicos desordenados, incluindo compulsão alimentar, purgação, abuso de laxantes e jejum para perda de peso, são quase tão comuns entre homens quanto entre as mulheres.
Nos Estados Unidos, os distúrbios alimentares afetam cerca de 10 milhões de homens em algum momento de suas vidas. Entre os casos mais recorrentes estão adolescentes que sofreram bullying devido à obesidade na infância e atletas que para alcançar seus objetivos apostam em dietas cada vez mais restritas. Vários fatores levam homens e meninos a serem subdiagnosticados e não diagnosticados por um transtorno alimentar, segundo o psiquiatra Dr. Alexandre Pinto de Azevedo. Devido em grande parte ao viés cultural, eles são muito menos propensos a procurar tratamento para seu transtorno alimentar. Os pacientes do sexo masculino podem enfrentar um estigma duplo, primeiro por ter um distúrbio caracterizado como feminino e também pela necessidade de ajuda psicológica. Além disso, testes de avaliação com linguagem voltada para mulheres e meninas levaram a equívocos sobre a natureza da alimentação desordenada em homens.

 “A insatisfação com a imagem corporal não diz respeito à estética. O paciente se sente inadequado em seu próprio corpo, mesmo que ele esteja apropriado, e isso acontece igualmente com homens e mulheres”.

A boa notícia é que, uma vez que homens encontram ajuda, mostram respostas semelhantes ao tratamento desenvolvido com mulheres.

Anorexia tem a maior taxa de mortalidade de qualquer outra doença mental e existem ainda mais perigos para os homens cujo transtorno não é tratado. Estudos mostram que as mulheres têm mais gordura para queimar, isso significa que o homem anoréxico queima o músculo mais rapidamente, o que pode ter efeitos severos a longo prazo, mesmo se a pessoa começar a comer de forma saudável novamente.  Além da perda muscular, os homens com anorexia podem apresentar pressão arterial baixa, o que, por sua vez, resulta em possível insuficiência cardíaca. A anorexia masculina também causa perda de densidade óssea (formação de ossos frágeis),  desidratação (que pode potencialmente levar à insuficiência renal), perda de cabelo e fraqueza. Até 20% das pessoas que desenvolvem anorexia nervosa morrem do contínuo declínio geral da saúde corporal.

                                                                                                               

                                                                                                            Sinais de anorexia em homens

  • – Estar gravemente abaixo do peso

– Exercício intenso e compulsivo

– Dieta severa (ou autoinanição)

– Preocupação constante com medidas corporais

– Purgar com laxantes ou diuréticos

– Uso excessivo de pílulas dietéticas

– Diminuição do interesse pelo sexo

– Retirada e isolamento social

– Depressão ou mau humor

– Perda de cabelo

– Exaustão ou letargia

-Tornar-se irritado quando questionado sobre seu peso ou hábitos alimentares

 

 

   Espelho, espelho meu

Guilherme Lima Pereira, 18, teve anorexia durante quatro anos de sua vida, chegando a pesar 47 kg no pior estágio da doença.  Ele conta que a busca pela magreza nunca trouxe satisfação, por menor que fosse o seu peso a dificuldade de encarar a própria imagem o fazia querer emagrecer cada vez mais. “Eu cobria todos os espelhos da casa, porque não conseguia me olhar, por mais que me dissessem que estava bem, eu me sentia gordo, me sentia mal dentro do meu próprio corpo”, desabafa.

O jovem conta que aos 13 anos começou sua carreira de modelo e para se adequar encontrou um refúgio nas dietas. O mercado da moda e as pessoas ao seu redor o influenciaram a comer cada vez menos. Sua rotina de alimentação consistia basicamente em líquidos e folhas verdes, com uma refeição por dia. “Demorava horas no mercado, analisando as tabelas de calorias e carboidratos. No pior estágio consumia cerca de 800 calorias por dia, e aos fins de semana 600. Eu me acostumei a sentir fome.”

Remédios para emagrecer, jejuns que duravam cerca de 16 horas e ingestão de laxantes marcaram a adolescência de Guilherme, que começou a sentir os resultados da falta de nutrientes em seu corpo, desmaios frequentes, fraqueza e crescimento de pelos em grande quantidade, uma defesa do corpo para evitar a morte pelo frio. Seu Índice de Massa Corporal (IMC) o classificava como um caso de magreza extrema.

Só aos 16 anos, após sofrer um desmaio e ser levado ao hospital, foi diagnosticado com anorexia nervosa e encaminhado para o tratamento com profissionais. Em casos como esse são requisitados médicos, nutricionistas, psicólogos, terapeutas e o apoio da família e amigos para recuperação do paciente.  O trabalho para curar a anorexia é árduo e pode demorar anos, e ainda assim é passível de recaídas. Guilherme ressalta a importância dos familiares e amigos em todo processo e hoje sente que superou o transtorno graças ao suporte que recebeu.  “Claro que ainda existem os dias em que não me sinto bem e me privo de sair de casa, mas isso é até normal. Na maior parte do tempo consigo ser feliz com meu corpo e com quem eu sou, e devo isso às pessoas que amo”, contou.

Hoje, ele busca ajudar o maior número de jovens possível, para que saibam que padrões não existem, que todos são diferentes e especiais de sua maneira. “A indústria quer nos igualar, nos padronizar, mas é só olhar nas ruas, ao seu redor: ninguém se parece com as pessoas que vemos nas redes sociais ou nas revistas. Não precisamos nos comparar a falsos moldes, nós só precisamos ser felizes”, afirma o jovem, que tem planos de criar um projeto social para apoiar pessoas com transtornos alimentares.

A nutricionista Marie Alvarenga defende que a mídia nunca foi tão pervasiva, nunca fez tão parte de nossas vidas e nos influenciou tanto como agora. Segundo Marie, parte da entrevista realizada com pacientes deve envolver quem ele segue nas redes sociais, assim é possível ter noção de que tipo de conceitos de saúde, corpo, beleza e alimentação ele carrega desses perfis.

A influenciadora digital Ellora Haonne ganhou fama por discutir temas como aceitação e beleza em diferentes formas. Ao publicar o vídeo em que realiza um tour pelo seu corpo, desmistifica a imagem perfeita propagada pela rede social Instagram. Ellora, que já sofreu com bulimia e distorção de imagem, mostrou seu corpo ao natural, com todas as suas particularidades e reforçou o quanto é normal ter celulite, estrias e gordurinhas. Ao mostrar os truques de pose e iluminação que utiliza, abriu uma porta para discussão sobre a relatividade da beleza e a nocividade da criação de corpos que não existem. “Minha autoestima mudou no momento em que comecei a me construir a partir de referências diversas, seguir pessoas diferentes, conversar com todo tipo de gente, descobrir que a vida é muito mais do que a mídia mostra. Hoje consigo achar todas as pessoas verdadeiramente bonitas e quero que elas se sintam assim também”, afirma.

O crescimento da anorexia e dos transtornos alimentares também entre os homens demonstra que as exigências de um corpo perfeito não fazem mais distinção de gênero.  Os padrões de beleza mudam frequentemente de acordo com as necessidades do mercado, que lucra com a insatisfação pessoal, pois dessa forma o indivíduo está propenso a consumir mais produtos que prometem eliminar milagrosamente todas as supostas imperfeições.

 

Grupos de Apoio e tratamento:

http://gatda.com.br/

http://www.ambulim.org.br/

 

Guilherme Lima Pereira:

https://www.facebook.com/borntogui

 

Alice Veloso: Fotografia; Amanda Eduarda: Revisão; Bruna Caroline: Reportagem/Redação e Pauta; Deiviani Bernardo: Reportagem; Gean Carlo Seno: Edição.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *