Em pleno 2017, homens gays ainda são impedidos de doar sangue

Por Beatriz Tavares

Proibição surgiu há cerca de 30 anos e vigora até os dias atuais

Mesmo com baixo estoque de sangue, pessoas que preenchem os requisitos básicos de doação são impedidas de ajudar o próximo. Estamos falando dos homens homossexuais. No auge dos anos 80, com a epidemia da Aids, foi criada uma portaria onde este grupo foi, a partir daí, impedido de doar sangue. Segundo a portaria, só é permitida a doação de sangue, depois de 12 meses da última relação sexual entre homens. Passadas três décadas, o avanço tecnológico e os novos conceitos inseridos na sociedade, os bancos de sangue ainda rejeitam esses doadores. De acordo com o Ministério da Saúde, entre os homens com HIV, há mais heterossexuais. Mas, contrariando uma tendência mundial, no Brasil, a proporção de homossexuais contaminados vem aumentando, principalmente entre os mais jovens.

Em contrapartida a isso, os bancos de sangue sofrem com a falta de abastecimento nos postos e os estoques estão ficando cada vez mais baixos. Por isso, grandes hemocentros, hospitais e instituições se mobilizam em prol da doação, mas há fatores que ainda impedem muita gente de ajudar. Embalada a luzes vermelhas, a maior campanha para estimular as doações ocorre nos meses de junho e julho, época de frio e férias, onde costuma-se ocorrer um maior declínio na doação. Mas, mesmo em tempos assim e preenchendo os requisitos comuns de doação (ter mais de 50 quilos e portar um documento com foto), os homens gays são impedidos de doar. Nesse caso, por manterem relações sexuais com outros homens, o que não difere ou interfere nos requisitos doacionais.

Conversamos com Lucas Oliveira, 23 anos, para saber mais sobre este problema enfrentado pelos homossexuais há tantos anos. Ele nos conta que nunca tentou doar sangue, pelo preconceito e constrangimento vivido por outros colegas. Lucas relata a tamanha insatisfação diante disso, afirmando ser preconceito e diz: “não compactuo com o sistema que me impede de ajudar outras vidas”. Lucas afirma que nunca ter ido doar sangue pode parecer egoísmo, porém, com as normas vigentes, não se sente bem mentindo sobre quem realmente é. Para saber se o doador é gay, antes da doação, os bancos receptores fazem uma entrevista, e, nessa entrevista, uma das perguntas é sobre as últimas relações sexuais.

Diante de tantas opiniões e queixas relacionadas ao assunto, conversamos também com a psicóloga, Helenice Alves, 38 anos, que refere-se a essa população como qualquer outra, independentemente das preferências sexuais. Desta forma, “compreendo as diferenças no domínio sexual da natureza humana e busco auxiliar homossexuais em condição de aceitarem a si mesmos, uma vez que a orientação sexual não é uma escolha e, portanto, não pode ser alterada”, segundo a psicóloga. Em relação às normas vigentes, Helenice afirma abranger diversos fatores, como por exemplo, a saúde pública: “De uma lado o governo justifica uma incidência maior de HIV, porém, ao mesmo tempo, não são somente gays que possuem comportamentos de risco”, em vista disso, sugere a procura de novas formas para proteger os receptores e evitar um risco maior de doença. Além disso, diante de tantas tecnologias infectologistas, a psicóloga acredita que uma aposta contra essa proibição é a ciência, assim prevenindo a discriminação em relação à orientação sexual e investindo em diagnósticos rápidos com mais eficiência.

Apesar de todo esse contexto, no STF (Supremo Tribunal Federal) tramita uma ação, embasada pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro), que vê a norma como discriminatória. Segundo o partido, o artigo de lei expõe um  “absurdo tratamento discriminatório por parte do Poder Público em função da orientação sexual”. Alguns ministros já votaram a favor da ação, porém ela foi suspensa por um pedido de vistas. A Código AUN segue acompanhando o assunto e em breve trará mais novidades.

 

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