Recentes atentados acendem o debate sobre a saúde mental do homem

Taxa de suicídio é maior no sexo masculino, índices são alarmantes e apontam um crescimento de 28% desde 2007.

Por Bruna Santana e Natasha Macedo 

Os últimos massacres ocorridos no Brasil, Nova Zelândia e Holanda levantaram mais uma vez o tema sobre a saúde mental masculina. Todos esses ataques foram protagonizados por homens. Quando se trata de homicídios de forma geral e em nível global, os homens são 95% dos autores e 79% das vítimas, segundo estudo publicado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). De acordo com um levantamento da imprensa americana, entre 1982 e 2017 ocorreram 95 tiroteios nos EUA. Desses, 92 foram cometidos por homens. Transtornos psicológicos, bullying e até a testosterona já foram objetos de estudo para pesquisadores que buscam respostas para esses dados, sempre acompanhados pelo debate sobre a importância do cuidado com a saúde mental masculina e o porquê é tão negligenciada pelos homens.

Ao longo da vida, a forma como os homens aprendem a verem a si mesmos e a projetar sua imagem é muitas vezes o que os leva ao dilema da masculinidade. “O homem, desde cedo, foi ensinado a ser autossuficiente e a lidar com as suas próprias questões de forma autônoma. O machismo muito contribui com esse movimento. Afinal, buscar qualquer tipo de ajuda seria uma demonstração de fragilidade à sua masculinidade. Em meu consultório, de todos os pacientes que atendo, apenas 7% são homens”, diz Paula Souza Oliveira, 28, psicóloga e especialista em Psicologia Clínica.

Depressão

Conhecida como “mal do século XXI”, a depressão é a doença psicológica que mais vem crescendo nos últimos anos. Seus sintomas podem ser confundidos com tristeza ou preguiça. Segundo o site da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a pessoa com depressão pode sofrer com perda de interesse por atividades cotidianas, baixa autoestima, tristeza desproporcional, diminuição da energia, perda ou ganho de peso, insônia ou sono em excesso e dificuldade de concentração.

Também desperta alguns problemas físicos como dor de barriga, má digestão, azia, dor de cabeça, dores no corpo e pressão no peito. É comum que haja algumas diferenças no comportamento do homem em relação às mulheres. Enquanto elas apresentam tristeza e crises de choro, eles tendem a ficar mais irritadiços e agressivos, o que torna o diagnóstico mais difícil pois pode ser facilmente confundido com mau humor.

Um dos problemas que podem ser desenvolvidos em consequência da falta de cuidado com a depressão é a tendência ao suicídio. A taxa de suicídio a cada 100 mil habitantes chegou a 9,2 entre os homens, um aumento de 28% em uma década (veja gráfico abaixo).

Índice por 100 mil habitantes entre 2007 e 2016 / Fonte: Ministério da Saúde

Machismo e seus efeitos à saúde mental

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, mostra que o machismo pode prejudicar a saúde mental dos homens. Segundo a pesquisa, homens que tentam exercer autoridade sobre as mulheres possuem uma necessidade de controle emocional e autoconfiança excessiva. Assim, se tornam suscetíveis a sofrer de depressão. “Se a sociedade cobra que o homem seja ‘macho’, qualquer ajuda afronta a masculinidade. É preciso ser autossuficiente para bancar essa ligação”, completa Paula.

Bullying

Os problemas com depressão na vida adulta podem estar relacionados a casos de bullying na infância ou adolescência. Segundo estudo publicado no The British Medical Journal (BMJ), pesquisadores da Universidade de Oxford (Inglaterra) relacionaram casos de depressão em jovens de 18 anos com casos de bullying aos 13. Após os jovens responderem a um questionário que trazia temas como bullying prévio na infância, histórico familiar, eventos estressantes na vida e problemas mentais e comportamentais, concluiu-se que dos 638 adolescentes que reportaram serem vítimas frequentes de bullying, 14,8% apresentaram depressão aos 18 anos. Entre aqueles que sofreram bullying no máximo três vezes no período de 90 dias, 7,1% de 1.446 adolescentes estavam com depressão aos 18. Apenas 5,5% que nunca sofreram bullying tiveram depressão nessa mesma idade.

Mesmo assim, apesar de estudos e dados que comprovam essa ligação, é preciso analisar individualmente cada caso para ter um diagnóstico correto.

Foto: Priscila Ferreira

Como combater

Estudos do Ministério da Saúde apontam que o risco de suicídio é reduzido em 14% em municípios com a presença de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O órgão é resultado de uma política pública que busca oferecer um serviço de tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais.  Porém, o CAPS não dispõe de acompanhamentos específicos conforme o gênero. Também existem programas, como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), que abrangem a saúde masculina como um todo, mas perdem na eficácia para tratar transtornos mentais isoladamente.

A sociedade também se organiza para tratar do assunto e tentar mudar esse cenário do sexo masculino. Trata-se de grupos de apoio como o projeto “Homens em Conexão” de Brasília (DF) que, desde 2018, promove atividades e eventos voltados para o tratamento do homem e suas masculinidades. Fernando Aguiar, 34, psicoterapeuta, mestre em Psicologia Clínica e um dos pioneiros desse projeto, acredita que é preciso “criar espaços onde os homens possam repensar a forma tradicional de masculinidade, que tanto é usada para a própria proteção”.

Um dos projetos parceiros é o “Masculinities – Educação, comunicação e cuidado entre Homens”, também de Brasília (DF). A mais recente iniciativa do projeto é o “Vibrantes – Grupo Terapêutico para Homens”, que tem como objetivo oferecer um trabalho profundo e intensivo de autoconhecimento em grupo. “Respeitando os tempos de cada um, é importante ver formas de caminharmos juntos, projetando a construção de um mundo melhor e mais equilibrado. Todo esse processo faz parte da construção social masculina”, explica Rafael Gonçalves, 32, psicólogo e criador do programa.

Em São Paulo, foi criado o “Grupo Terapêutico de Homens” pela Lumos Cultural. O objetivo é oferecer um espaço de conversas e de troca de experiências entre homens, sempre mediado pelo psicólogo e terapeuta de casais Alexandre Coimbra de Amaral. Os encontros são gratuitos e acontecem quinzenalmente às terças-feiras, às 19 horas. 

Apoio na palma da mão

Além de encontros presenciais e assistências médicas, é possível obter ajuda de maneira ainda mais rápida e fácil. O Centro de Valorização da Vida (CVV), fundado em 1962 em São Paulo, presta apoio emocional e preventivo do suicídio por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias. O atendimento vai desde uma simples conversa até o encaminhamento para um profissional. É feito por voluntários que recebem treinamento adequado e não precisam de formação em Psicologia. Todas as ligações são gratuitas e o anonimato é garantido.

Lembre-se: se você ou alguém que conhece estiver passando por bullying, apresentar algum sintoma de depressão ou tendência ao suicídio, procure ajuda profissional.

Centro de Valorização da Vida (CVV) – Telefone 188 – https://www.cvv.org.br

Para saber mais:

Grupo Terapêutico de Homens

Lista de projetos sobre masculinidade – site “Papo de Homem”

Conteúdos sobre masculinidade

 

Pauteiro – Jônatas Marques
Repórteres – Bruna Santana e Natasha Macedo
Fotografia / Infográficos – Priscila Ferreira
Revisor – Jefferson de Souza Bezerra
Editor – Teotonio Mariano

10 comentários em “Recentes atentados acendem o debate sobre a saúde mental do homem

  • março 29, 2019 em 1:12 pm
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    Muito bom, parabéns a todos do grupo.

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    • março 30, 2019 em 3:34 pm
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      Muito obrigado!

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    • março 30, 2019 em 3:34 pm
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      Que bom que gostou! Obrigado!

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  • março 30, 2019 em 2:17 am
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    Muito boa a reflexão…. penso que se pode estender e ir além falando dos distúrbios na infância, e da cultura machista existente na sociedade que transforma o homem na vítima mais cruel. Seja no papel de opressor ou oprimido.

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    • março 30, 2019 em 3:39 pm
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      Sim! A discussão é longa e o trabalho para mudar isso mais ainda! É preciso entender os distúrbios de infância e a cultura machista de forma profunda para começarmos a criar uma consciência quanto à saúde do homem.
      Muito obrigado pelo apontamento!

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  • março 30, 2019 em 3:56 am
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    Parabéns pelo texto rico em informações pertinentes, dentro do tema. Realmente não tinha essa visão do número de homens, pois participei de uma palestra sobre suicídio e taxa maior ainda oscilava entre mulheres, jovens, idosos.
    Achei perfeito o texto. Parabéns a todos

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    • março 30, 2019 em 3:41 pm
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      Os dados nos assustam também, principalmente o crescimento de 28% na última década. Precisamos discutir e refletir sobre quais caminhos tomar para tratarmos desse mal.
      Obrigado pelo relato!

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  • agosto 30, 2019 em 1:38 pm
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    Fiquei Muito Interessado pelo seu post.Vou acompanhar seu Blog que é muito bom. É TOP ! Esse tipo de conteúdo tem me agregado muito conhecimento.Grato !

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  • setembro 21, 2019 em 6:57 am
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    Esse é um assunto bem delicado. Infelizmente a ansiedade, a insônia e o estresse andam juntos com a depressão. E na minha opinião a depressão não é uma frescura como muitos acham que é, ela é uma doença grave que precisa ser tratada o mais rápido. Conteúdo muito top, obrigado por compartilhar!

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