Debate sobre os desafios da Assessoria de Imprensa na III Semana de Jornalismo

Último dia da III edição da Semana de Jornalismo trouxe os desafios da assessoria de imprensa como tema de discussão.

Por Karine Gomes

Na manhã da última sexta-feira (3), o campus Liberdade da Universidade Cruzeiro do Sul recebeu o jornalista Sérgio Bourroul para falar sobre os Desafios da Assessoria de Imprensa, em evento mediado pelos professores Nivaldo Ferraz e Antônio Lucio Assiz. Formado pela Cásper Líbero, Bourroul está no ramo da comunicação há mais de 30 anos e passou por empresas como Estadão, Odebrecht, Jovem Pan e Nestlé. Como foco do debate, Sérgio usou sua passagem pela Nestlé, onde enfrentou um dos maiores desafios de sua carreira. Na empresa, Bourroul foi responsável pela gestão de crise da imagem da empresa, que na época passava por um escândalo de produtos supostamente envenenados.

O jornalista Sérgio Bourroul, ao lado do professor Nivaldo Ferraz.Foto: Marianne Silva

Entenda o caso de produtos envenenados da Nestlé

Em março de 1991, a empresa Nestlé recebeu uma carta em que uma quadrilha, que se autodenominava  Organização Celular, pedia cerca de 500 mil reais em barras de ouro, em troca de não aniquilar os produtos Nestlé. A carta de cunho chantagista tinha o objetivo de intimidar a empresa. A Organização se dizia infiltrada nacionalmente em vários postos e mercados distribuidores e, caso a empresa envolvesse a policia, seus produtos seriam envenenados com cianureto.

Um trecho da carta recebida pela diretoria da Nestlé em 7 de março de 1991:

“Sou membro celular de uma associação. Fui agraciado com grande privilégio ao ser escolhido mediador de uma transação comercial entre a Organização e a Nestlé. Me denomino desde agora como Paulo. Fui escolhido como elo de contato com o doutor Antônio Salgado Perez (diretor jurídico da empresa). Desde agora, ele será o mediador de todas conversações ou transações que ocorrerem à seguir daqui para frente. De antemão, pedimos que em hipótese alguma a polícia seja informada de todo o parcial dessa negociação. Se isso for percebido ou detectado pó algum, de muitas das células dessa organização, acarretará em uma quebra de negociações e subsequentemente, a organização passará para a 2° fase da transação que será a total aniquilação dos produtos Nestlé em todo o Brasil e exterior (…)”

Durante o debate, Bourroul explicou como a empresa lidou com a chantagem e como seu papel de assessor foi fundamental para que a imagem  corporativa  não fosse mais prejudicada. “Quando fui contratado, o objetivo era aproximar a empresa de seu consumidor. Todos tinham uma relação pessoal com a Nestlé, era um carinho muito grande. Quando cheguei lá, deduzi que seria fácil. Era uma empresa renomada e querida pelos brasileiros, nitidamente havia uma preocupação com seu consumidor.”

O jornalista chegou ao núcleo do caso do envenenamento. “ O membro da quadrilha conseguiu provar que tinha total controle em manipular o veneno nos produtos Nestlé. Porém, discretamente, a empresa, acionou a polícia que pediu para dar corda para as negociações, prometendo prender o culpado”, contou.  O caso chegou à matriz da Nestlé na Suíça. A carta, escrita em uma máquina de escrever, não deixava rastros. “O chantagista descobriu que havíamos envolvido a polícia e ameaçou jogar tudo para o ar, mas resolveu dar uma segunda chance.”

Conforme as negociações avançavam, o chantagista parecia mais esquivo. Aceitou negociar por telefone, porém suas ligações nunca eram da mesma origem.  “Em uma tentativa arriscada, a Nestlé pediu provas concretas ao chantagista, que não hesitou e deu data e local de onde atuaria: Carrefour, Campo Grande, Barra de chocolate.”  Nesse local, foram encontradas doses de veneno na embalagem, porém insuficientes para matar uma pessoa, pois o objetivo era provar que o chantagista podia agir nos mercados e não ser detectado.

O caso terminou com a Nestlé lançando um comunicado à imprensa, pedindo ao público cuidado ao consumir os produtos da marca. O comunicado foi exposto nos maiores jornais do Brasil, gerando uma queda no consumo temporária, mas um resultado final com aprovação da população em relação à marca e à forma como o tema foi abordado.

Após o fim da palestra, uma roda de perguntas foi aberta à platéia. Ao ser questionado pela audiência sobre a atuação como assessor de imprensa ao defender uma empresa incriminada, no caso a Odebrecht, envolvida na Lava-Jato, o jornalista respondeu: “Em 2007, quando estavam construindo a linha Amarela do metrô em São Paulo, houve um acidente no qual um soterramento nas obras feriu várias pessoas. E a construtora era a responsável. Então, fui contratado para resolver isso, como gestor da imagem da empresa. Eu observei que meu papel era fundamental. Ele estava além da comunicação externa de imprensa. Porém, antes de aceitar o convite, perguntei se para trabalhar na empresa eu precisaria mentir, e o rapaz que me ofereceu a proposta disse que não. Então, topei. Foi então que em 2015, quando começou a investigação da Lava-Jato, eu já estava há sete anos na empresa. Hoje, eu digo: se eu pudesse voltar no passado e recusar a proposta de trabalhar na Odebrecht, eu recusaria. Não porque eu devo, mas sim porque todo esse tempo sofri muito desgaste profissional”, concluiu o jornalista.

 

Antes do início e ao final da palestra de Bourroul, houve a apresentação cultural da Semana. A aluna do 3° semestre Júlia Paiva cantou clássicos da MPB acompanhada de José Paiva, ao violão. Foto: Marianne Silva

Créditos:
Karine Gomes – Texto

Pamela Vieira – Redatora

Thailize Oliveira – Edição

Jeniffer Alves – Edição

Lorena Rocha – Edição

João Marcelo – Revisão

Marianne Silva – Fotógrafa

Camila Alves – Fotógrafa

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