III Semana de Jornalismo aborda a resistência dos jornalistas à ditadura militar, com Rose Nogueira

Por Alice Santos e Geovanna Domingos

Teve início nesta segunda feira, 29, a III Semana de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul. Após a mesa sobre Jornalismo Periférico, sediada no Campus São Miguel,  pela manhã, a programação seguiu à noite com  uma grande homenagem à jornalista Rose Nogueira. Em um bate-papo com os professores e alunos , ela contou como os jornalistas resistiram à ditadura militar no Brasil após o golpe de 1964.

III Semana do Jornalismo,  no Campus São Miguel – Foto: Fernanda Ferreira

A programação começou com uma apresentação cultural comandada pelos alunos Júlia Epifânia Silva e Tiago Yasser, do campus São Miguel. A coordenadora Profa. Dra. Regina Tavares e o Prof. Me. Antônio Assis leram um manifesto a favor da liberdade de expressão em homenagem à convidada.

Rose Nogueira, nascida em 1946, jornalista e militante, contou como foi levada em 1969 ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde foi presa e torturada.  A convidada e homenageada foi recebida com a exibição do depoimento que gravou para a novela da emissora SBT, Amor e Revolução. “Foi a primeira vez que uma emissora falou abertamente sobre as torturas da ditadura. Acredito que até hoje esse tema não tenha tanta visibilidade”, diz Rose.

O primeiro trabalho como jornalista foi aos 18 anos em uma revista de fofoca chamada Intervalo. “Fui  secretária da secretária da secretária e meu trabalho era ir nas emissoras de televisão para saber da programação para comentá-la”, brincou. Porém, reiterou na palestra que o que realmente queria era trabalhar com reportagens.

Rose Nogueira (à esq.) e os professores da Universidade Cruzeiro do Sul. Foto: Rebeca Real

Logo depois entrou no jornal Shopping News. “Era um jornal muito importante na época. Ele era distribuído gratuitamente aos domingos, então todas as famílias recebiam”, explicou. Lembra também de quando trabalhou com Manoel Carlos Chaparro, na Folha de São Paulo. “Eu fazia trabalho de freelancer nessa época, publicando artigos de moda em folhetins temáticos, que foram praticamente uma invenção do Chaparro. Lembro de um artigo sobre calça jeans, naquele tempo não era tão comum quanto é hoje em dia, as calças eram contrabandeadas do Paraguai, que importava elas dos EUA para o Brasil”, relembrou.

Ela contou que na mesma época fez uma entrevista com o historiador e professor Sérgio Buarque de Holanda, sobre um comercial de jeans cuja letra usava a palavra ‘liberdade’. “Fiz uma matéria sobre a palavra ‘liberdade’, uma palavra sagrada, servindo para esse propósito de vender calças”, continuou.

No encerramento da palestra, momento de muitos aplausos para Rose Nogueira  – Foto: Rebeca Real

O professor Antônio Assis perguntou a Rose Nogueira como foi o processo de censura nos jornais depois do golpe de 1964. “O processo de censura aconteceu quase que imediatamente”, respondeu.  Também mencionou uma passeata que aconteceu em frente ao seu local de trabalho, próximo à Editora Abril. “Nós não acreditávamos que o golpe iria de fato acontecer”, completou Rose.

“O principal jornal a ser perseguido foi o Última Hora, que fazia um jornalismo popular”, explicou. Rose contou que o veículo era comandado pelo jornalista Samuel Wainer, apoiador do PTB, um partido mais popular, oposição aos políticos que deram o golpe. “O partido tratava de coisas mais voltadas ao trabalho. Ele era bem ‘getulista’, trazia questões mais populares. E foi o próprio Getúlio que trouxe a industrialização para o Brasil, principalmente para São Paulo. Caso contrário, ainda estaríamos vendendo café”, brincou,  ao relatar o fato. “Lembro-me de uma manchete do Última Hora, logo quando os jornais começaram a ser censurados: Ditador quer silenciar a imprensa”, recordou. “O Última Hora foi o principal jornal a ser perseguido, com fortes censuras, foi ‘empastelado’ duas ou  três vezes.”

Os jornalistas Audálio Dantas (in memorian) e Manuel Carlos Chaparro já foram os homenageados durante as Semanas de Jornalismo anteriores e desta vez  foram relembrados em vídeo.  Foto: Rebeca Real

A jornalista relatou que foi presa, pois escondia muitas pessoas perseguidas pela ditadura em sua casa. Dividiu a cela com aproximadamente 50 mulheres, vivendo em estado lamentável e totalmente desumano.  “Não consigo esquecer como eu suava, não só de calor, mas de medo.” Conta também que havia dado à luz recentemente e estava tendo sangramento. “Fui privada de tomar banho e como o local só possuía uma pia eu apenas me limpava e usava papel higiênico como absorvente. Com isso acabei contraindo uma infecção que me deixou estéril”, descreveu.  Afirmou também que a pessoa que a torturava dizia que a sequela da tortura não passaria, algo que ainda concorda. “A ditadura passa, a dor física passa, mas nossa dor emocional não passa”, disse Rose.

Momento de homenagem à convidada Rose Nogueira (ao centro), com o aluno Guilherme de Sousa (à esq.) e a coordenadora do curso, Profa. Dra. Regina Tavares (à dir.).  Foto: Rebeca Real

A III Semana de Jornalismo não acabou. O evento ainda abordará diversos assuntos, com a presença de vários palestrantes. Para saber mais dos dias e horários, acompanhe a página oficial do Código – AUN no Facebook e/ou pelo Instagram @auncodigo .

 

Editoras – Mariana Tomaz e Monique Viana;

Redatoras – Camila Alves e Ingrid Estevão;

Fotografas – Fernanda Ferreira e Rebeca Real;

Revisoras – Amanda Cunha e Ana Beatriz Magalhães;

Redes Sociais – Lucas Santos e Kleber Lins.

3 comentários em “III Semana de Jornalismo aborda a resistência dos jornalistas à ditadura militar, com Rose Nogueira

  • maio 2, 2019 em 5:10 pm
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    Muito bom parabéns!

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  • maio 3, 2019 em 3:06 am
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    Ótima matéria, muito bem escrita!

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  • maio 6, 2019 em 10:20 am
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    Parabéns pelo trabalho e estudo de vocês.

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