Lugar de mulher no jornalismo é onde ela quiser

O debate sobre diferenças de gênero no exercício da profissão jornalística ganha espaço no segundo dia da III Semana de Jornalismo

Por Gabriela Cuerba 

Na última terça-feira (30), a Universidade Cruzeiro do Sul, Campus Liberdade, recebeu as jornalistas Mayra Siqueira, Tatiana Vasconcellos e Thaís Nunes, com mediação da professora Dra. Mirian Meliani, para participar da mesa redonda e discutir sobre “O lugar da mulher no jornalismo é onde ela quiser”.

As palestrantes falaram da árdua realidade que as mulheres enfrentam diariamente na profissão. Muitas são assediadas, têm o seu trabalho desvalorizado e quando se trata de jornalismo esportivo, onde a maioria dos que exercem a profissão são homens, o gênero feminino sofre preconceito e repressão sexista. As jornalistas ainda compartilharam suas experiências e deram diversas dicas ao público.

Ser jornalista: mulheres no comando

Thaís Nunes, Tatiana Vasconcellos e Mayra Siqueira.
(Foto: Estela Aguiar)

Para ser jornalista é necessário prudência, cuidado e muita atenção, pois quando se é mulher, infelizmente, como disse a repórter Thaís Nunes, o esperado é que a profissional seja duas vezes melhor. Mostrar a própria capacidade torna-se uma imposição diária em uma profissão majoritariamente masculina. Além disso, é muito frequente precisar enfrentar situações de assédio. As jornalistas relataram histórias como pedidos de fontes para jantar ou sair e casos que ocorrem até mesmo dentro das redações.

A âncora do Estúdio CBN, Tatiana Vasconcellos, comentou ter sofrido com as diferenças entre os gêneros no início da carreira. “Quando eu era adolescente, fui atleta e gostava de jogar vôlei, mas por não ter o porte físico exigido, decidi que seria jornalista esportiva. Já me perguntaram se foi o machismo que me fez desistir dessa área. Nunca tinha pensado nisso, porque nós não falávamos ou conseguíamos identificar essas atitudes machistas.”

Tatiana Vasconcellos, apresentadora do programa Estúdio CBN.
(Foto: Estela Aguiar)

Segundo Tatiana, diversas vezes ela foi contestada por colegas de trabalho, ou até por entrevistados homens, dizendo que ela não entendia de futebol ou de determinado esporte. Como tais atitudes eram pouco comentadas e em outros casos o machismo era velado,a saída era seguir adiante, fazer um bom trabalho e “mostrar para o que veio”.

A jornalista conta sobre um momento específico em que foi ‘diminuída’ por um técnico conhecido por fazer uma pergunta sobre a nova escalação do time. O treinador falou de maneira grosseira e desqualificou a pergunta feita por ela. Um outro repórter presente na coletiva de imprensa insistiu na pergunta feita por Tatiana e foi respondido, sem nenhum questionamento ou implicância. 

Mayra Siqueira, jornalista esportiva com passagens pelo SportTV e CBN.
(Foto: Estela Aguiar)

A repórter Mayra Siqueira, atualmente afastada da profissão, divide suas experiências na área esportiva. “Comecei a carreira cedo, fui muito questionada pela idade e, por muitas vezes,  não percebi que o que acontecia comigo era machismo. Vivemos um momento em que nós paramos para debater isso. Na primeira vez que ouvi um comentário machista fiquei arrasada e pensei que aquele não era o meu lugar. Na segunda, já estava mais forte e dei risada. O que tento falar sempre é: nunca duvide de você mesma por conta de uma interferência externa.”

Os incidentes machistas não se restringem apenas ao jornalismo esportivo. Thaís Nunes, repórter investigativa do SBT, possui fontes hegemonicamente masculinas para compor suas matérias diariamente, que normalmente são juízes, advogados, defensores públicos e promotores, entre outros. 

Thaís Nunes, repórter investigativa no SBT.
(Foto: Estela Aguiar)

“Enfrento dificuldades para que essas fontes confiem no meu trabalho e, também, tem o machismo dos meus colegas que sempre dizem ‘Ah, a Thaís conseguiu determinada matéria porque é mulher’. Quando você é mulher, precisa estabelecer uma relação de confiança com suas fontes, mas precisa também de cautela para se esquivar de comentários sexistas ou investidas, situações que meus amigos homens nunca passaram”, lamenta. Para Thaís, a melhor forma de driblar os preconceitos é ocupar os espaços e continuar fazendo matérias exclusivas com competência.

 

 

Na visão dos alunos
Para a estudante de Jornalismo do 5º semestre, Pamella Eloine (25) a palestra foi de suma importância para as mulheres que estão ingressando na área. “Você vê três profissionais com histórias diferentes que tomaram caminhos diversos, mas sofreram a mesma coisa para mostrar o seu valor. A Tati passou por aquela situação com o técnico, mas nem por isso ela deixou de seguir na profissão. A Thaís também vem de uma área bem masculina, mas está aí, é repórter do SBT e tudo mais. A palestra é uma motivação para jornalistas mulheres não desistirem.”

Alunos da Cruzeiro do Sul assistem à palestra do dia 30 de abril no Campus Liberdade.
(Foto: Estela Aguiar)

Vinícius de Sá Oliveira (17), estudante do 1º semestre de Jornalismo, comentou que ficou surpreso com o que foi relatado, pois “imaginava que por serem jornalistas, os colegas de trabalho jamais iriam desmerecer uns aos outros. Quando vi a falta de respeito com as mulheres, fiquei indignado. A mensagem ficou clara e isso faz com que nós, homens, tomemos mais cuidado”, afirmou.

 

Créditos:

Repórter/ Edição e Revisão: Gabriela Cuerba
Repórter e fotógrafa: Estela Aguiar
Texto e Mídias Sociais: Mônica Moreira
Texto e Revisão: Giovanna Salvatore
Produtor: Sheila Pinheiro

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