Vidas em jogo: a situação dos alojamentos das categorias de base no país do futebol


Por Vitória Karoline e Giovana Duarte

O incêndio nos alojamentos do Clube de Regatas Flamengo, que ocorreu em 8 de fevereiro, deixou 10 mortos, consternou a população e expôs à sociedade a realidade das categorias de base no futebol, que está longe de receber a mesma atenção de uma categoria profissional.

O ocorrido no Ninho do Urubu abriu espaço para discussões sobre as condições dos atletas em todos os níveis. Atualmente, o Flamengo é o maior e o mais rico clube do Brasil. No entanto, isso não foi o suficiente para manter a categoria de base em segurança no alojamento.

Apenas três dias após o incêndio no CT, o alojamento utilizado pelo clube carioca Bangu também sofreu as consequências da precariedade das bases, com incêndio que deixou dois jogadores feridos.

Após os incidentes, a preocupação dos clubes foi colocada em xeque, com inúmeros questionamentos sobre os atletas em início de carreira.

 

A realidade dos jogadores de base

No Brasil, os atletas de base do futebol recebem pouco ou nenhum recurso para seguir o sonho de chegar ao mercado profissional. O objetivo dos meninos é claro: alcançar os times grandes, onde desistir desse futuro consagrado a poucos, não é opção.

Muitos atletas deixam de ir aos treinos por falta de ajuda de custo, pois alguns clubes não disponibilizam sequer o valor gasto nas passagens de ônibus ou alimentação. Esse panorama revela distância entre os altos valores negociados com os patrocinadores e os jogadores profissionais.

Alguns clubes disponibilizam alojamentos centralizados no local de treino, enquanto outros alugam construções precárias e, muitas vezes, em bairros afastados para acomodação dos atletas. Além disso, não há separação de faixa etária ou categorias, sendo normal oito ou mais meninos, de diversas idades, dividirem espaços pequenos e que não possibilitam boas condições de estadia.

Atletas contam que é normal jogadores mais velhos obterem privilégios entre os colegas por vantagens físicas e de intimidação. Este olhar mais atento sobre as categorias de base mostra que mesmo com recursos, os clubes brasileiros não possuem o cuidado necessário com esses profissionais em início de carreira.

Eles convivem em ambientes impróprios, com condições de treinamento de baixa qualidade e alojamentos longe de serem uma acomodação ideal.

 

Foto: Giovanna Salvatore

 

Segurança e aprovação junto ao Corpo de Bombeiros

Cada município determina como devem ser as regras de segurança para os vários tipos de edifício. Com isso, legislações passam a regulamentar padrões de segurança que identifiquem a proteção, tanto das construções, como também dos usuários. O auto de vistoria dos bombeiros é um documento obrigatório e que exige renovações sazonais.

Importante citar que atualmente os bombeiros não possuem poder de vistoria sem que haja a prévia solicitação do proprietário e que no momento cabe à prefeitura de cada município realizar a fiscalização e a autuação dos edifícios fora de conformidade.

O processo para obtenção do laudo de segurança dos bombeiros é burocrático e com taxas que podem assustar os desavisados, sendo necessário contratar empresa apta a entender a legislação de segurança e as maneiras de adequação ideais. Este processo não acontece uma única vez, visto que a legislação sempre recebe atualizações, e o próprio laudo tem prazo de validade determinado por cada municipalidade, gerando mais custos.

Muitas vezes, essa burocracia e sua manutenção desestimulam empresas a manterem suas construções seguras. Há prédios que ficam extremamente custosos para manter de acordo com as normas, cujas vistorias acabam não sendo realizadas.


Pouco mais de um mês após o incêndio no CT do Flamengo , em que morreram 10 atletas de base, o clube conseguiu em 11 de março uma liminar para reabrir o Ninho do Urubu, que havia sido fechado pela prefeitura do Rio de Janeiro. A medida não autorizou o uso dos alojamentos na parte dos dormitórios de todas as categorias do clube, no entanto, estão liberados para uso, os campos, academia, sede administrativa e refeitório (sendo este último, proibido de realizar o preparo de qualquer alimento).

O Departamento jurídico do clube abriu negociações com as famílias dos 10 atletas, onde apenas uma fechou acordo. Já os outros atletas permanecem sem acordo definido com o time.

 

*Os atletas citados concordaram com publicação de imagem e informações pessoais, assim como suas famílias.

 

Vitória Karoline – Repórter

Giovana Duarte – Repórter

Giovanna Salvatore – Fotógrafa e revisão

Sheila Pinheiro – Pauta e revisão

Gabriela Stella – Edição e Planejamento de Mídia

5 comentários em “Vidas em jogo: a situação dos alojamentos das categorias de base no país do futebol

  • março 15, 2019 em 4:38 pm
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    Arrasaram meninas! ❤️

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  • março 16, 2019 em 12:39 am
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    Ótima foto de destaque, parabéns!

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  • março 16, 2019 em 1:03 am
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    Parabéns! Ficou excelente!!!

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  • março 16, 2019 em 2:28 am
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    Amei ! Parabéns ! Ficou excelente
    Que matéria linda, parabéns amoras

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  • março 16, 2019 em 3:59 am
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    Realmente as crianças de base tem muita dificuldade de seguir em frente por falta de recurso
    Sou mãe de um atleta de base e luto muito pra realizar o sonho do meu filho
    Às vezes tenho que comprar chuteira no cartão
    Quando acaba de pagar ja tá na hora de comprar outro
    E fora que atleta tem que ter uma alimentação saudável
    E não podemos proporcionar isso
    E quando a criança defendeu o time da cidade
    O mínimo que eles deveria fazer
    É pelo menos pagar as passagens de ônibus pra irem aos treinos

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