Conheça o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas

Por: Rodrigo França

Audálio Dantas não é apenas mais um jornalista brasileiro. Audálio Dantas é – ou deveria ser – um dos ícones do jornalismo no país. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas no mesmo ano da morte de Vladimir Herzog, em 1975. Juca Kfouri, durante a entrega do Título de Cidadão Paulistano ao Audálio, em discurso, disse que, durante a ditadura, o local onde se sentia mais seguro era dentro do Sindicato, “ao lado do presidente Audálio Dantas”.

Dantas começou como repórter na “Folha da Manhã”, e algumas de suas reportagens viraram livros. Mas a carreira dele não para por aí: em 1981, o jornalista recebeu da Organização das Nações Unidas (ONU) o prêmio de Defesa dos Direitos Humanos. Ele também foi deputado federal pelo extinto Movimento Democrático Brasileiro (MDB), sem nenhum tipo de financiamento de campanha. Sua eleição foi pelo reconhecimento de seu trabalho.

Confira uma entrevista exclusiva com Audálio Dantas, que relembra o período ditatorial no Brasil, entre 1964 e 1985, aponta as mudanças que o Sindicato dos Jornalistas sofreu com o tempo e ainda orienta quem está iniciando a carreira jornalística:

Como foi a trajetória do senhor até a presidência do Sindicato dos Jornalistas?

Audálio Dantas: Isso dá margem à resposta a outra pergunta; quando me perguntam quantos anos eu tenho de jornalismo, eu falo 20. E as pessoas ficam meio estranhando, né, porque podia ser mais. Mas acontece o seguinte: a minha carreira de repórter no dia a dia durou 20 anos, que foi até eu assumir a presidência do Sindicato dos Jornalistas. Eu continuei trabalhando na redação na época da revista Realidade, mas logo depois, eu não pude mais sair para a rua pra fazer reportagem, como eu costumava fazer, em função dos acontecimentos que vieram, principalmente do caso Herzog, que mudaram completamente a minha vida. Dali pra frente, as coisas se precipitaram e eu não pude continuar fazendo o que eu gostava, que era fazer reportagem. Mas na verdade, eu comecei ainda um pouco jovem, em meados dos anos 1950. Eu trabalhei em poucas redações: primeiro na Folha, depois na revista Cruzeiro, depois na revista Quatro Rodas e Realidade. As outras foram eventuais, de pouco tempo. Eu fiquei uns três ou quatro meses na Manchete, aqui em São Paulo, e fui editor de texto da revista Nova, que não significa nada. Bom, mais ou menos isso, né, mas esses 20 anos foram intensos de reportagens.

702aa49f-10e5-4021-868c-9a6ddc9630b2Como foi enfrentar a ditadura militar, principalmente após a morte de Vladimir Herzog?

Audálio: Esse enfrentamento começou bem antes da morte do Vlado Herzog. Como a morte do Herzog foi episódio da maior relevância, então se fala nele, principalmente. Mas a própria eleição para o Sindicato dos Jornalistas foi uma luta contra a Ditadura Militar. Era um movimento nascido nas redações, de baixo pra cima, e eu fui candidato à presidência do Sindicato por circunstâncias. E quando eu assumi, assumi já com determinação, já que decidi assumir a candidatura com a decisão de que eu não queria uma mera atividade sindical, uma carreira sindical, mas uma trincheira de luta contra a Ditadura Militar. E os embates com a Ditadura, mais diretamente, começaram logo depois da minha posse. Dois meses depois da minha posse, já estava bem declarada essa situação de conflito, em função de atividades que contrariavam a Ditadura. A luta contra a política salarial, luta contra a censura e outras coisas. Depois, em junho, começou uma operação dos grupos que se opunham à abertura política anunciada pelo Geisel, e essa operação dizia que a imprensa estava sendo dominada pelos comunistas. Era uma mentira muito grande, mas esse era o pretexto que eles tinham para a repressão. E começou uma onda de repressões muito grande, a partir do final de julho, se intensificou em agosto e setembro e, finalmente, no começo de outubro atingiu o jornalismo. Aí é que aconteceu o episódio Herzog.

Juca Kfouri, durante a entrega do título de Cidadão Paulistano ao senhor, declarou que um dos poucos lugares onde ele se sentia seguro durante a ditadura era em sua casa. E que o senhor era sinônimo de segurança e proteção aos jornalistas daquela época. Como o senhor encarava essa situação? Sentia-se mesmo um herói para a classe?

Audálio: A minha casa que ele falava era o Sindicato dos Jornalistas. Eu nunca me senti herói, não. Não é por modéstia, não é falsa modéstia, mas na verdade eu nunca me senti herói. Acontece que as circunstâncias naquele momento me colocaram no olho do furacão. Havia essa operação, que atingiu os jornalistas, começaram as prisões dos jornalistas no começo de outubro, e aí o que me coube fazer, por coerência e por determinação, não só minha, mas do grupo que assumiu a diretoria do Sindicato dos Jornalistas, foi começar a reagir contra aquele fato. As prisões ocorriam de um modo absolutamente ilegal, sem mandato judicial. A Ditadura não respeita mandato judicial. E desde o começo o sindicato protestou contra as prisões. Isso foi nos levando a uma espécie de guerra entre o Sindicato e os militares. E tudo que aconteceu nesse episódio que se culminou com o assassinato do Vlado Herzog foi parte da nossa determinação de não aceitar aquela situação. Havia uma reação muito forte contra a repressão dos militares e havia, naturalmente, muito medo. Os heróis em geral não têm medo.

Fazendo um comparativo ao passado, se é que isso é possível, existe alguma diferença em relação ao Sindicato dos Jornalistas? No passado, o sindicato tinha mais força do que nos dias de hoje?

Audálio: Não só o Sindicato dos Jornalistas, mas o sindicalismo de um modo geral. Tanto é que foi o ressurgimento do Movimento Operário, do sindicalismo do ABC Paulista, com o Lula, no final dos anos 1970. Esse renascimento teve uma importância muito grande na luta contra a Ditadura Militar. E eu aproveito pra dizer que o ressurgimento do Movimento Sindical Operário do ABC foi uma das consequências do caso Herzog. O caso Herzog foi uma das últimas vítimas da Ditadura a ser sepultada, mas não em silêncio. O protesto que partiu do Sindicato dos Jornalistas permitiu que houvesse uma reação da sociedade a partir da realização do culto ecumênico, em memória do Vlado, no final de outubro. O sindicalismo que surgiu no final dos anos 1970 teve essa importância, e depois, como é público, uma importância muito grande nos movimentos que derrubaram a Ditadura. As greves, em 1979 e 1980, dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, tiveram o papel de promover o renascimento das lutas sindicais. Os sindicatos começaram a atuar e tiveram papel importante nos anos seguintes. Hoje, especialmente em função da globalização da economia – isso não é um fenômeno só brasileiro -, mas houve um refluxo muito grande do governo sindical. Então esse refluxo se faz presente até hoje. Inventaram um monte de centrais sindicais, a maioria faz uma oposição de mentira, como é o caso da Força Sindical, uma oposição pontual, aqui, ali, sem nenhum sentido mais profundo. No caso dos jornalistas, não só dos jornalistas, mas de muitos outros sindicatos, houve um fenômeno grave que foi já usada nos anos 1980, uma partidarização muito forte. A maioria dos sindicatos dos jornalistas passou a ser ocupada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), e isso é muito grave, porque sindicato não tem partido. Sindicato tem que ser de todas as tendências, porque as categorias não são homogêneas em termos ideológicos partidários.

O senhor acha que isso se deu após Lula chegar ao Governo?

Audálio: Principalmente, porque como havia uma identificação do movimento sindical com o Lula, consequentemente, ao assumir o poder, os sindicatos de certa forma se consideraram também no poder. Consequentemente, as lutas sindicais são evitadas, em função disso.

A carreira em políticas públicas do senhor começou em 1978, quando foi eleito deputado federal, segundo Juca Kfouri, sem nenhum tostão. Como o senhor se sentiu ao ser apontado como um dos 10 melhores deputados do país?

Audálio: Da mesma maneira que eu assumi a presidência do Sindicato dos Jornalistas sem a intenção de fazer uma carreira sindical, ao assumir a candidatura de deputado federal a minha condição foi a de que eu não ia para o Congresso Nacional com a intenção de me tornar um profissional da política. Mas ao mesmo tempo considerei que aquilo exigiria de mim uma participação muito grande, principalmente porque isso foi em 1978, ano de eleição, estávamos em plena luta de resistência militar e meu propósito foi atuar no Congresso na continuidade da luta contra o regime. E aí foi que eu dediquei grande parte do meu mandato à luta pela liberdade de informação, consequentemente contra a censura e a denúncia dos crimes da Ditadura. Muita gente perguntava se o jornalista tinha a ver com o exercício de uma representação política. Eu sempre achei que sim, e até muito. Aliás, a minha representação no Congresso, dessa citação do Juca, foi uma pesquisa feita em que eu fui apontado como a atuação mais importante da bancada de São Paulo, e um dos 10 melhores do país.

Quanto tempo durou a carreira de político?

Audálio: Eu tive um mandato só, porque a minha eleição foi absolutamente livre de interesses econômicos. Tanto que não custou um tostão, tudo voto espontâneo. Os 59 mil votos que eu tive foram ideológicos. E quatro anos depois, eu perco a reeleição porque faltaram mil votos. Mas eu continuei do mesmo jeito, tinha um comitê só, não tinha carro. Mas eu sempre disse que não era meu objetivo fazer uma carreira.

Analisando a campanha do senhor, que foi sem nenhum tostão, hoje em dia o senhor acha que é possível fazer uma carreira política sem financiamento de campanha?

Audálio: De jeito nenhum. Essa é a grande distorção da representação popular no Brasil. Hoje em dia, depende de muito dinheiro. As campanhas para deputados vão a milhões de reais. A grande crise política que o país vive hoje é decorrente dessa situação. O que é o Mensalão? É essa questão do Financiamento, de caixa dois, etc. O que é a crise da Petrobrás? A mesma coisa. Então, se a Odebrecht dá 20 milhões em uma campanha, não é à toa. E eles costumam ter uma prática de financiar todos os partidos. Consequentemente, nós temos um sistema partidário absolutamente falido, de interesses imediatos. A situação nossa hoje é muito grave em fator disso. Naquela ocasião foi um movimento da sociedade contra a Ditadura. Então vários parlamentares foram eleitos assim.

Qual dica o senhor dá para quem está iniciando a profissão?

Audálio: Essa é uma pergunta muito difícil, principalmente hoje, quando a profissão está em crise. Primeiro, os empresários conseguiram acabar com a exigência do diploma. Consequentemente, isso trouxe mais desempregos. As novas tecnologias trouxeram uma crise aos meios impressos, que, por sua vez, tiveram que restringir o mercado de trabalho. E principalmente porque o exercício da profissão não é mais aquele de interesse da sociedade. Mas, no entanto, ela tem ainda uma importância muito grande. Acho que o jornalismo exercido de acordo com os princípios de submissão às verdades dos fatos ainda é uma coisa muito importante no papel do regime democrático. Mas não é por isso que as pessoas devem deixar de insistir, porque se eu tenho vocação para determinada profissão, eu devo continuar. Não é porque vai ser difícil que eu vou deixar de tentar. Perde o sentido, inclusive, da participação de cada um nas mídias sociais. A profissão continua, apesar de todas as dificuldades, sendo importante nesse sentido. Que o jornalista se aproprie bem das novas tecnologias e não deixe que seja apenas de interesse do voluntariado. Isso não significa que cada um tem que ter um blog, significa discutir os meios pelos quais você utiliza essas novas tecnologias no sentido de oferecer informação.

2 comentários em “Conheça o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas

  • outubro 28, 2016 em 6:27 pm
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    Grande jornalista.
    Parabéns pela matéria e entrevista,
    bem propícia para a atual fase política que vivemos, repleta de retrocessos.
    Não vivemos uma ditadura, mas a luta continua.

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    • novembro 1, 2016 em 2:04 pm
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      Fico feliz que tenha gostado da matéria, Lucas. Obrigado pelo comentário.
      Realmente, o atual momento político que vivemos não está nada fácil, mas serve de aprendizado para nossas lutas diárias.
      Lutar sempre! Temer jamais!

      Grande abraço.

      Resposta

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