A nova geração de drag queens

A sociedade se divide em nichos. Por mais que todos ouçam falar sobre um ou outro, dentro de cada comunidade ainda existem centenas de outros grupos se formando, discutindo e produzindo, e a comunidade LGBT não seria diferente. Em tempos de ondas de conservadorismo tomando conta do país e do mundo, um grupo vem se destacando e chamando a atenção para uma forma de arte que existe e resiste há décadas: a cultura drag.

perucasDrag queens são personagens ou personas femininas, comumente exageradas, trazidas a vida geralmente por homens para propósitos artísticos e/ou profissionais. Apesar de serem conhecidas mais pela inversão de gênero, as drag queens possuem infinitas variáveis. Elas podem ter todo tipo de personalidade, mensagem ou estilo, assim como podem ter todo tipo de talento. Drag queens podem se apresentar em diversas performances diferentes, como as chamadas de lip sync, em que elas interpretam uma música, ou podem cantar, dançar, tocar, atuar, realizar shows de comédia, apresentar eventos e muitos outros trabalhos.

O que mais trouxe visibilidade a esse grupo nos últimos anos foi o “RuPaul’s Drag Race”, um reality show comandado por RuPaul, uma das mais famosas drags dos Estados Unidos. O programa tem oito temporadas
até o momento, além de duas edições especiais. A cada temporada, entre 10 e 17 participantes competem entre si em desafios de humor, costura, canto, lip sync e outros. Com o programa disponível na Netflix, sua fama foi difundida entre os brasileiros e vem crescendo desde a quinta edição.

E quanto às drag queens brasileiras?

Batemos um papo rápido com a DJ e performer Molly Pie (ou Rafael Vinicius) sobre a cena drag no Brasil, sua entrada na arte drag e o que ela acha sobre tanta gente descobrindo esse lado da comunidade LGBT.

 

Há quanto tempo você trabalha como drag queen?

Vou fazer 21 anos agora, então já fazem uns quatro anos.

 

Como você descobriu que gostaria de se montar?

A primeira vez foi em festa de trocado, sabe, em festa junina? Desde criança eu pegava maquiagem, colocava toalha na cabeça… mais tarde conheci algumas drags pela internet e comecei a treinar em casa. Aí depois comecei a sair e não penso em parar.

 

O que a sua família acha?

Quando eu era criança ninguém falava muita coisa. Agora, quando eu comecei, ninguém entendeu muito bem. Não sabiam se eu era trans, travesti, mas depois que expliquei que era um trabalho eles foram entendendo melhor.

 

Você tem uma irmã mais nova. Como ela reage quando te vê montado?

Ela vem aqui, brinca com as perucas. Acho que seria muito divertido se a gente se montasse juntas um dia. Uma vez ela quis me maquiar quando estávamos indo pra uma festa de família, eu deixei um pouco (risos).

 

A comunidade drag tá crescendo mais nos últimos tempos?

Sim, desde que eu comecei vem crescendo muito. Acho que tem bastante a ver com RuPaul e também com algumas drags brasileiras que estão fazendo sucesso cantando, como a Pabllo Vittar ou a Glória Groove. Teve uma época que nós chamamos de “boom das drags”, toda semana apareciam 20 novas adicionando no Facebook.

 

E isso é bom?

Eu não me importo, sempre achei que quanto mais melhor, precisamos mostrar a nossa cultura. Algumas pessoas se importam, acham que tem gente fazendo só pela “modinha”. Mas algumas drags podem começar assim e acabar se profissionalizando.

 

Parte da fama trouxe mais mulheres fazendo drag. O que você acha?

Eu acho ótimo. Ajuda na comunidade e não deixa de ser arte. Algumas drags preferem outro nome pra elas, faux queen.

 

Já que muita gente se familiarizou com drag queens depois de RuPaul, você acha que as drags brasileiras são parecidas com as de lá?

Até que sim, mas acho que a veia artística lá [nos Estados Unidos] é um pouco mais forte do que aqui. Lá tem mais drags fazendo um estilo diferente e focado na arte mesmo.

 

Tem alguma diferença entre Rafael e Molly?

Meus amigos dizem que sim, mas eu não acho muito. Acho que quando estou montado fico mais solto, por causa do status que a drag queen dá, aí fico mais à vontade.

 

Para saber mais sobre a cultura drag brasileira não é difícil, basta conhecer os clubes e bares LGBT da sua cidade e descobrir em quais festas elas estarão presentes. Seja para fins políticos, sociais ou apenas de entretenimento, as drag queens seguem sendo uma parte fundamental da comunidade LGBT e prometem ocupar cada espaço que pertence a elas: todos.

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