Impeachment ou golpe: a dúvida continua

        O ano de 2016, no Brasil, está sendo o mais agitado politicamente desde o início do século. Depois de altos e baixos (fica a seu critério decidir qual é qual), um dos maiores nós da História recente se desfez: a retirada de Dilma Rousseff da presidência do país.

O que foi ouvido nas ruas e na internet desde o início era: impeachment ou golpe? Agora que o processo foi finalizado, seria de se esperar que tivéssemos uma resposta. O que temos, porém, é uma onda de acusações vindas de todos os lados e pouco conteúdo para um debate real sobre o assunto.

Afinal, foi impeachment ou golpe?

         Esquerda e direita – quaisquer que sejam as definições atuais para elas – discordam muito nesse ponto, mas ambos possuem argumentos. Conversamos com a candidata a vereadora de São Paulo, Muna Zeyn, pelo PSOL, com o secretário de finanças do Partido Novo, Marcos Alcântara Machado, com o sociólogo Edson Gonçalves Silva e com alguns manifestantes em um dos vários protestos contra o governo Temer que vem ocorrendo ultimamente.

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          Para falar sobre política atual no Brasil, precisamos lembrar do que já aconteceu. Os primeiros nomes em que pensamos ao ouvir as palavras “golpe” ou “impeachment” são, respectivamente, militares e Collor. São os dois maiores exemplos que temos em um país ainda tão jovem politicamente, portanto é natural que exista certa comparação entre o que vemos hoje e o que já vimos antes.

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         No caso do regime militar, por mais extremo que tenha sido, alguns conseguem ver traços semelhantes ao momento atual. Muna comenta que um ponto em comum é o perigo de retrocesso, como a ameaça contra os direitos trabalhistas. A candidata lembra, também, que a reação bruta da Polícia Militar contra manifestantes vai contra o direito constitucional de nos expressarmos, visão essa defendida também pelo sociólogo, Edson Gonçalves: “pouco se fala sobre isso, mas nós já vivemos uma ditadura civil. Nós só não temos o fator que tivemos na outra ditadura, que foram os militares, mas se observamos o modo como a Polícia Militar age nas manifestações, temos o campo mais reacionário dentro da Segurança Pública”. Outras pessoas não associam tanto os dois períodos, ainda que considerem o ocorrido atual como golpe. O militante do MST, Matheus Gringo de Assunção, observa que apesar do aumento da militarização presente nas manifestações, o que houve em 2016 “é essencialmente um golpe institucional, parlamentar”.

         Por outro lado, os que consideram o processo como um impeachment válido não necessariamentfoto-4e apoiam todo o desenrolar. Marcos Alcântara lembra que o impeachment é uma ferramenta institucional, mas que o ideal era que a chapa Dilma-Temer tivesse saído em conjunto. “O processo de impeachment foi absolutamente legal. Dilma cometeu a maior fraude eleitoral da História ao fazer as pedaladas fiscais pra mascarar o rombo que estava no governo”, ele afirma, prosseguindo ao dizer que quem mais pede pelo ‘Fora Temer’ é quem votou nos dois. “Quem sofreu golpe foi quem votou na Dilma”.

O único outro impeachment que o Brasil já conheceu, de Collor, não é totalmente sem semelhanças. Edson Gonçalves falou também sobre isso, observando que “o pano de fundo para os dois é o mesmo, a influência dos meios de comunicação” e que ambos os ex-presidentes cometeram atos que descontentaram massivamente a população. Outro ponto que Gonçalves levanta, porém, é o possível ‘jogo’ político que levou à saída da ex-presidente Dilma e que prepara o terreno para as eleições de 2018.

Mesmo com pedidos nas ruas por ‘Diretas Já’, muitos concordam que é improvável que existam eleições presidenciais antes de 2018 e ainda é nebuloso pensar o que pode acontecer até lá. Alcântara acredita que, economicamente, Michel Temer está tomando medidas certas, mas que as próximas eleições fatalmente trarão outros nomes. Ele defende que o Brasil precisa de algo novo, e nisso Muna também se pronunciou: “não penso em pessoas, penso em projetos, em um programa para o Brasil”.

Um dos pontos em comum levantado pelos manifestantes foi o temor a respeito da perda de direitos já conquistados. Durante um dos atos ‘Fora Temer’, a estudante de Sociologia Marina Maschietto afirmou: “Eu acho que ele representa um grande retrocesso ele vai causar danos que vamos demorar muito tempo para superar, ele está acabando com os direitos arduamente conquistado com muita luta”. Outra manifestante, a aposentada Maria Tereza, expressou suas preocupações sobre o futuro: “Eles querem implantar a reforma da CLT, os jovens vão penar com contratos precários que eles estão querendo colocar, trabalhando 10 ou 12 horas por dia e só aposentar se conseguirem sobreviver”.

O que nos resta é esperar que o novo governo lide com a herança de seu antecessor e que o Brasil não saia perdendo.

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